Claro que as nossas tias queridas que nos deram cabo dos dentes nos acusam de nunca nos termos negado a tais oferendas...
12-Nov-2011
Todos tivemos umas tias velhas que, para conquistar a nossa amizade, nos davam chocolates e rebuçados. Não havia dia que não aparecessem com um saco na mão esquerda e com a direita nos penteassem os cabelos com ar conquistador. Mas uns anos passados chegou a hora em que nos sentamos na cadeira do dentista e ele sentenciou: “andou a comer muitos doces e agora vou ter que lhe tirar um ou outro dente. E há aqui uns que precisam de ser tratados mas mesmo assim não sei se vou conseguir safá-los”. Aí nós sentimos a dor e a seguir a perda. Pensamos sempre que isso acontecia apenas a outros. Mas desta vez somos nós que estamos sentados na cadeira do dentista de boca aberta. Nós Portugal.
Claramente andamos a comer muitos doces nos últimos anos. Desenfreadamente. Cavaco empanturrou-nos com auto-estradas e conquistas sociais. Engordou o monstro que agora nos suga. Para culminar tivemos o maior dos boca-doce, Sócrates o pai das parcerias público-privadas e do ilusionismo. E da mentira pura e dura. Nós íamos gostando destes e de outros doces. Era uma fartura.
Os bancos tornavam tudo ainda mais doce, e o povo foi lambuzar-se pelo mundo fora. Proliferaram as agências de viagens, ele era charters para todo o lado e no regresso sentia-se o cheiro não de leite-creme queimado mas de cartão de crédito torrado. Comprava-se tudo a crédito e com crédito se pagava os créditos vencidos. O estado gastou o que tinha e o que não tinha. Aumentou funcionários em ano de eleições como se o dinheiro aparecesse por passe de mágica. Os boys foram aumentando. A ética desaparecendo.
Assistimos a malta que se vendia por uns peixes. Assistimos a bancos, BCP e Caixa, a emprestarem dinheiro para lutas de poder no BCP. Um escândalo que a malta assistiu como se fosse uma zanga entre vizinhas. E vimos passar o presidente da Caixa para o BCP como se um jogador de futebol se tratasse. Mas acabou.
O choque com a realidade é brutal, mas verdadeiro. Não há dinheiro e agora há que resolver o problema. Vão ter que se tirar uns dentes, os subsídios da função pública e a perda de rendimento generalizado; remediar outros, os cortes nos transportes e na saúde; mas ainda vão ficar por tratar muitas outras cáries. A justiça é de urgente tratamento, e a economia é fundamental revitalizar. Mas uma coisa é certa, os doces terminaram e por muito tempo.
E claro que as nossas tias queridas que nos deram cabo dos dentes nos acusam de nunca nos termos negado a tais oferendas. É certo que não, mas a culpa é dessas tias por muitas virgens que queiram agora parecer. Elas é que tinham obrigação de saber o que faziam.
É nesta altura que rogamos pragas e desejamos que lhes caiam os dentes todos. De uma vez só. E ainda não começamos a sentir a dor. Mas de seguida vamos sentir a perda. Pois elas vão ser em simultâneo. E o que mais me dói é pensar que sozinho sou incapaz de alterar o rumo das coisas e que os meus filhos vão crescer num país em dor e em perda. Mas a esperança é a última coisa a morrer e até para os dentes já há implantes. Vamos então todos resolver este carie e de uma vez por todas expulsar as tias velhas que mais não são do que umas bruxas más.
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