|
Possuidora de uma história ímpar no mundo motorizado, a Pirelli, multinacional italiana na área da produção de pneus, atravesou este ano um período ímpar da sua história ao avançar para o desafio supremo de ser fornecedora exclusiva de pneus para a categoria rainha do desporto automóvel, a sempre mediática Fórmula Um. Este facto, e o necessário balanço deste primeiro ano em que “calçou” os rápidos monolugares de Vettel, Allonso, Hamilton ou Button, seria desde logo motivo suficiente para uma conversa com o responsável máximo pela Pirelli em Portugal. Contudo, o diálogo não poderia ficar por aí, nomeadamente se tivermos em que conta que Alejandro Recasens, assim se chama o novo Country Manager da Pirelli em Portugal, está entre nós há pouco mais de dois meses, havendo por isso a oportunidade de sabermos com que objectivos e ambições é que este quadro da Pirelli chega ao mercado luso.
 |
Na entrevista ao LusoMotores, Alejandro
Recasens revela que o mercado português é
particularmente interessante para os pneus
de gama média-alta, um nicho de mercado
particularmente activo em Portugal |
|
Com 36 anos, Alejandro Recasens é natural de Saragoça, em Espanha, e chega ao lugar de Director Comercial da Pirelli em Portugal depois de uma carreira profissional iniciada na empresa italiana que, nos últimos onze anos, levou-o já a passar por diversos departamentos dentro da empresa, desde a área da produção, nas fábricas da marca em Turim, até aos serviços de apoio ao cliente, mas também por diversas sucursais da Pirelli em outros países, nomeadamente em Itália, Alemanha, França e agora em Portugal, onde está há pouco mais de dois meses.
Com formação em Engenharia Industrial, Alejandro Recasens, que chega para substituir Andrea Casaluci, que voltou a Itália para assumir o lugar de responsável mundial de logística para a Divisão Motociclo, afirma-se muito motivado com esta “aventura” no nosso país, embora reconheça que esta missão não será fácil por via da situação complicada em que o mercado luso se encontra, numa altura em que será necessário criar uma diferente cultura dos portugueses em redor do pneu, à beira de um ano em que questões como a etiquetagem dos pneus deverá ser uma preocupação.
Assumindo a convicção de que tudo irá acontecer muito rápido, o responsável máximo da Pirelli em Portugal acredita que dentro de dois anos serão muitas as mudanças no mercado, no qual apenas irão continuar aqueles actores que estão desde já a agir de acordo com as necessidades. Os restantes, diz, arriscam-se a desaparecer. Com espírito de missão, este responsável admite mesmo que poderá ficar por Portugal se tudo correr bem até ao final da sua carreira, até porque, confessa, não acha ser positivo uma rotação muito rápida das direcções nas empresas.
"Em Portugal tudo acontece
a uma velocidade impressionante"
Actualmente ainda a descobrir a realidade de Portugal, nomeadamente as pessoas, os locais, os costumes ou a gastronomia, Alejandro Recasens teve oportunidade de estar no Brasil há alguns anos, o que lhe permitiu algum à vontade no primeiro embate com a língua portuguesa, afirmando-se disposto a descobrir a riqueza de um país pequeno mas “com uma riqueza muito grande”.
Em termos de mercado, recebeu algumas informações provenientes de anteriores responsáveis da Pirelli em Portugal, bem como dos serviços da Pirelli em Espanha, mas afirma-se disponível para construir as suas próprias ideias. Para já, dos primeiros contactos, assume que ficou impressionado com a velocidade que sentiu no mercado e a proximidade entre as pessoas – um dia acontece uma coisa no sul e menos de 24 horas depois já se fala disso no norte –, num mercado em que “o factor da relação pessoal tem um peso importante”. Ainda assim, recusa usar a expressão metafórica de “pequena aldeia” para definir a realidade portuguesa por achar que será uma ideia levada ao extremo, preferindo falar num “mercado conservador, no qual as coisas estão a mudar e irão mudar ainda mais rapidamente nos próximos anos”.
Instado a definir a realidade da Pirelli em Portugal, o novo Director Comercial da divisão portuguesa da multinacional italiana começou por nos dar conta do posicionamento da Pirelli, concentrada num segmento mais “premium” dentro da respectiva gama de produtos, o que vai convergir com a estratégia global da Pirelli. Em termos europeus, explica, a Pirelli quer mesmo ser reconhecida cada vez mais como uma marca Premium, e a estratégia global também passa por aí. Curiosamente, em Portugal, apesar de ser um mercado pequeno, é no segmento médio-alto que estão a ser conseguidos melhores resultados, algo que é visto com bons olhos pelos responsáveis da Pirelli em face da estratégia da marca em termos internacionais. Aliás, Alejandro Recasens reconhece que apesar da natural importância para o mercado dos produtos de segmentos inferiores, “existe um nicho de mercado importante nos produtos de gama alta, e não estando ao nível da Alemanha ou até mesmo da Espanha, a verdade é que tem uma dimensão interessante que tem de ser considerada”.
Estamos assim perante um mercado português que acaba por ser classificado como “positivo”, preocupando-se a Pirelli com a necessidade de garantir um bom posicionamento naqueles segmentos que estão “a sofrer” menos, e que também no caso português são os produtos de gama alta.
"Key Point e a Fórmula Um
serão as preocupações imediatas"
Em termos de estratégias de vendas a retalho, a Pirelli, a exemplo do que acontece com outras marcas, aposta no estabelecimento de uma rede de vendas, a Key Point, mas com um conceito porventura bem distinto das demais. Sem pretender criar uma rede própria exclusiva da marca, a Pirelli prefere estabelecer uma parceria de colaboração com alguns espaços já existentes, criando assim espaços em que os proprietários têm a total liberdade de gestão da sua loja.
Dentro do conceito Key Point, a Pirelli inaugurou recentemente uma loja no Montijo, que pode ser vista como exemplo da estrutura a estabelecer, dentro de uma aposta a médio e longo prazo que deverá permitir criar uma rede com duas a três dezenas de pontos de venda no país.
A nível internacional, e depois do primeiro ano em que a Pirelli surgiu como fornecedor exclusivo de pneus para o sempre mediático Campeonato do Mundo de Fórmula Um, Alejandro Recasens garante que o balanço possível deste ano de 2011 foi positivo, com os objectivos de visibilidade, comunicação e identificação com um mundo de excelência e inovação, a serem atingidos a nível internacional. A Pirelli quis identificar-se como uma marca sempre presente no desporto, na competição e no desenvolvimento dos seus produtos, e a Fórmula Um permitiu isso mesmo.
"Em Portugal, ou tem a SportTV
ou não vê a Fórmula Um..."
Em termos mediáticos, na Ásia, tal como na América do Sul ou mesmo na Europa, a Fórmula Um permitiu à Pirelli assumir o lugar de destaque como uma marca de topo. Porém, segundo o nosso interlocutor, quando olhamos para Portugal encontramos “um pequeno problema chamado televisão”, que resulta da modalidade se transmitida em canal fechado.
“Trata-se de um obstáculo, uma particularidade da realidade portuguesa que nos obriga a compensar com maior empenho na comunicação. Comparando com os nossos vizinhos espanhóis, franceses ou italianos, que ao domingo podem acompanhar a presença da Pirelli na Fórmula Um do mesmo modo que o faziam quando era a Bridgestone ou a Michelin a fornecer pneus para aquele campeonato, em Portugal isso é bem mais complicad. Ou se tem a SportTV ou não se vê a Fórmula Um, e o público em geral acaba por ver a presença da Pirelli na Fórmula Um”, explicou.
A aposta no conceito Key Point para a implementação de espaços comerciais, e o reforço na comunicação da presença da Pirelli na Fórmula Um, serão assim os dois vectores que irão determinar o rumo da multinacional italiana na sua presença em Portugal. Depois, haverá a necessidade de criar uma boa estratégia comercial para permitir um estabelecimento homogéneo da marca no mercado luso. Já no que diz respeito aos produtos, estes encontram-se alinhados em três famílias – Cinturato, Scorpion e P-Zero –, e irão surgir em breve alguns novos produtos, nomeadamente o novo pneus P-Zero Silver, que resulta da experiência acumulada na Fórmula Um.
Num mercado em evolução, Alejandro Recasens destaca ainda novas situações que irão surgir em 2012, como a preocupação relativa à etiquetagem de pneus, algo que poderá permitir uma nova cultura num mercado em que, até agora, a principal preocupação dos clientes surgiu quase exclusivamente em redor do preço dos produtos, sendo necessário analisar igualmente a qualidade e as prestações. Será assim uma forma de levar os clientes a procurarem saber, quando pagam, aquilo que realmente estão a pagar.
Em jeito de nota de rodapé, e com a entrada do novo ano de 2012, quisemos saber junto do Director Comercial da Pirelli quais os seus desejos para os próximos 12 meses. Acredita que iremos ter um mercado mais filtrado, mais limpo, e manifesta a esperança de que as dificuldades conjunturais não se prolonguem para além de 2012.
Este endereço de email está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
Apenas utilizadores registados podem introduzir comentários. Por favor efectue login ou registe-se. |