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Consternado, apresentando um semblante carregado perante uma sala com mais de duas mil pessoas, o director do Lisboa-Dakar, o francês Etienne Lavigne, prometeu no Centro Cultural de Belém que a prova regressará em 2009 ainda mais forte. Segundo ele, "a história não acabou" e os "símbolos não morrem, o que justificará que o Dakar tenha que continuar". Ainda assim, este responsável lembrou que a primeira prioridade da organização é "sempre" a segurança das pessoas, motivo que o levou a fazer o anúncio que menos desejou: "É uma terrível notícia. O Dakar 2008 não vai partir". Depois, as explicações prosseguiram em ambiente mais reservado.
"Tendo em conta as actuais tensões políticas internacionais, o assassínio de quatro turistas, no passado dia 24 de Dezembro, atribuído a um ramo da Al-Qaeda, no Magrebe Islâmico, e as ameaças directas lançadas contra a prova por movimentos terroristas, a ASO não pode tomar outra decisão que não seja a anulação da prova", precisou Lavigne que confirmou entretanto que "todos os concorrentes receberão o dinheiro que pagaram para a inscrição".
Pouco depois da declaração lida no auditório principal do Centro Cultural de Belém, Etienne Lavigne, acompanhado pelo director-adjunto do Dakar, Frederic Lequien, e ainda por David Castera, responsável pela ligação da direcção da prova com os concorrentes, reuniram com os jornalistas para, com maior tranquilidade, dar mais algumas explicações em redor do que se passou. Aí ficou claro, por exemplo, que os pilotos serão reembolsados do dinheiro pago para as inscrições -- 12.000 para as motos e 22.500 euros para os carros --, algo que acontecerá "antes de 28 de Fevereiro".
Mais tarde, em comunicado, foram adiantadas outras explicações pela organização da prova: "Tendo em conta as actuais situações de tensão politica, a nível internacional, o assassinato de quatro turistas franceses, no passado dia 24 de Dezembro, atribuído a um ramo do Al-Qaida, no Magrebe islâmico, e acima de tudo as ameaças, directas, lançadas contra a prova, por movimentos terroristas, a ASO não pode tomar outra decisão que não seja a anulação da prova".
Certo é que as questões de segurança têm sido uma constante ao longo da história do rali, como aconteceu em 2007, com a anulação de duas etapas no Mali. No ano passado, porém, os problemas surgem na Mauritânia, para onde estavam previstas oito especiais em nove dias, sendo que entre elas estarão as etapas consideradas mais difíceis.
Ainda de acordo com o comunicado da Amaury Sport Organisation, "após inúmeros contactos com o governo francês – em particular o Ministério dos Negócios Estrangeiros – e tendo em conta as suas fortes recomendações, os organizadores do Dakar tomaram a decisão de anular a edição 2008 da prova, que deveria decorrer entre 5 e 20 do corrente mês, ligando Lisboa à capital do Senegal".
E o comunicado termina com algo que Lavigne já havia referido no encontro que manteve com toda a caravana: "A primeira responsabilidade da ASO é a de garantir a segurança de todos: populações dos países atravessados, concorrentes amadores e profissionais, sejam eles franceses ou estrangeiros, elementos da assistência técnica, jornalistas, patrocinadores e colaboradores do rali. A ASO reafirma que as questões de segurança não estão, não estiveram, nem nunca estarão em causa no rali Dakar".
Governo francês desaconselhou
"vivamente" o Dakar na Mauritânia
Esta situação começou a ganhar contornos mais definidos quando ontem, sexta-feira, o governo francês anunciou, em comunicado emitido pelo ministério dos negócios estrangeiros, que desaconselhava "vivamente" os os seus cidadãos a deslocarem-se na Mauritânia, nomeadamente durante a realização do Dakar. Esta posição surgiu uma semana depois de quatro turistas franceses terem sido assassinados, na véspera de Natal em Aleg, no sudeste da Mauritânia, em circunstâncias ainda pouco claras.
Relativamente a esta situação, e apesar de não ter sido reivindicada por qualquer organização terrorista, a sua autoria foi atribuída pelas autoridades francesas ao Grupo Salafita para a Predica e Combate (GCPC), uma organização armada argelina que se assumiu recentemente como braço da rede terrorista Al-Qaeda no Magrebe islâmico. Curiosamente, fontes locais admitiam que se poderia ter tratado de um roubo a que os turistas terão resistido. A verdade é que, três dias depois, três soldados mauritanos morreram num ataque contra uma base militar, numa acção que continua por esclarecer mas que poderá estar ligada ao primeiro incidente.
Na dúvida, as autoridades francesas terão feito prevalecer a sua tese, o que levou a que as seguradoras envolvidas nesta 30ª edição do Dakar tenham cancelado as apólices acordadas por questões de "efectiva falta de segurança". O governo da Mauritânia ainda se desdobrou em declarações oficiais, reiterando as garantias e segurança para todos os participantes no Lisboa-Dakar, mas a verdade é que a ASO viu-se impossibilitada de arriscar, também pela inexistência de um suporte segurador que pudesse ser realmente eficaz perante qualquer incidente.
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