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Uma informação objectiva do presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi dada ontem, quinta-feira, pessoalmente, através de um contacto telefónico, ao primeiro-ministro José Sócrates, dando conta da necessidade de "travar" o rali Lisboa-Dakar, justificando essa posição com as indicações seguras recolhidas pelos serviços secretos franceses sobre a intenção de elementos terroristas ligados à Al-Qaida perpetrarem atentados visando directamente a caravana do rali. Os serviços secretos franceses terão mesmo dado conta do que se estava a passar aos seus congéneres portugueses e ao embaixador francês em Lisboa, tendo este informado o ministério português dos Negócios Estrangeiros sobre a ameaça terrorista contra o rali.
Segundo adianta o semanário Sol na sua edição online, Sarkozy explicou a Sócrates que os serviços secretos franceses tinham tido conhecimento de que estava em preparação um atentado terrorista contra a caravana do rali, para acontecer no deserto, na Mauritânia. O ataque seria feito, ainda de acordo com a informação adiantada por Nicolas Sarkozy, por jipes com lança-rockets, situação que tinha que ser levada em conta e que terá mesmo levado a que o governo francês tenha dado indicações precisas à Total, a petrolífera daquele país que surgia como um dos patrocinadores principais da prova, para retirar o seu apoio à ASO caso esta pretendesse manter a prova.
Perante a posição do governo francês, e a consequente "saída de campo" da Total, e juntando a tudo isso a pressão feita por parte das seguradoras ligadas à prova, igualmente pouco interessadas em assumir a responsabilidade de tamanhos riscos, a ASO viu-se "encostada à parede", acabando por ser forçada a determinar o cancelamento da prova, numa decisão independente, sem qualquer participação da parte de João Lagos, o parceiro português da ASO que tinha a responsabilidade da organização logística da partida de território português.
João Lagos contrariado
Responsável pela organização em território português, João Lagos foi, de algum modo apanhado de surpresa pela decisão final, mas nada pôde fazer perante o peso das entidades que estavam a determinar o cancelamento da prova. Todavia, não deixou de evidenciar o seu desacordo com esta decisão, afirmando ao LusoMotores que "esta atitude vem abir um grave precedente para outros grandes eventos".
No mesmo sentido vão as declarações que fez aos jornalistas do semanário Sol que, na sua edição online contam como o empresário português relatou os acontecimentos: "o Governo francês deu ordem à organização para cancelar o rali, uma vez que a ameaça passou a ser sobre todo o percurso, e não só na Mauritânia. Os grandes eventos desportivos são todos alvo de grande pressão e ameaça. E não são cancelados. Esta decisão é um mau sinal".
Em causa estão agora as indemnizações às entidades que tinham já feito despesas em redor desta prova, tendo João Lagos garantido ao Sol que ""a organização francesa tem seguros que devem cobrir também a parte portuguesa", dando conta do seu entendimento segundo o qual os patrocinadores portugueses poderão ser ressarcidos dos prejuízos. Já em relação à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a principal patrocinadora do rali, terá de "resolver tudo com a organização francesa".
Comunicado da Al-Qaida
foi determinante
Determinante para este desfecho relativamente à 30ª edição do Dakar foi um comunicado da Al-Qaida, de 29 de Dezembro, que colocava em causa as autoridades da Mauritânia, nomeadamente pelo apoio à segurança do Lisboa-Dakar2008. A informação, adiantada pela Agência France Press que cita fonte próxima do processo, surgiu já depois do director da prova, Etienne Lavigne, ter justificado, em Lisboa, a decisão de anular o rali pelo "clima de insegurança" reinante depois do assassínio de quatro turistas franceses na Mauritânia na véspera de Natal.
No seu comunicado, o Braço da Al-Qaida no Magreb Islâmico (BAQMI, ex-Grupo Salafista para a Prédica e Combate - GSPC) critica a colaboração de Nouakchott com os "Cruzados, os apóstatas e os infiéis", recorrendo a uma terminologia regularmente utilizada nas suas ameaças e reivindicações de atentados, sublinha a mesma fonte, segundo a qual este comunicado "vem confirmar as motivações dos terroristas, autores dos assassinatos (dos quatro cidadãos franceses), bem como a mudança radical de estratégia implicada pela integração do GSPC na Al-Qaida".
Em Lisboa, Etienne Lavigne, director do Dakar acabou por evocar "razões de Estado" que não podia "nem comentar, nem explicar", para justificar a anulação da prova, que deveria decorrer já a partir de amanhã, 5 de Janeiro, até dia 20. "O governo francês invocou razões de Estado para nos aconselhar formalmente a não dar a partida do Dakar. Acrescento que comunicados da Al-Qaida no Magreb citavam o Dakar. Não conheço o conteúdo desses comunicados, mas o Quai d'Orsay tem-los em sua posse", afirmou Lavigne.
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