|
Poderão dizer os analistas mais conhecedores da política internacional, e da realidade da ameça terrorista, nomeadamente aquela que parte dos grupos extremistas islâmicos que, desde 2001, surgem associados à Al-Qaida, que o risco era elevado e que, de acordo com uma visão racional, não poderiam ser colocadas em risco tantas vidas humanas devido a uma prova desportiva. Será correcta essa análise, e até avisada, mas a verdade é que depois desta decisão em redor do Dakar, uma das provas de desporto motorizado mais mediáticas em termos mundiais, a par da Fórmula Um e provavelmente mais mediática do que o Mundial de ralis (WRC), tudo fica em causa, e qualquer grande evento passa a ficar vulnerável perante uma ameaça feita através de um qualquer telefone, ou colocada online num qualquer site da Internet que possa ser atribuído a alegadas forças terroristas. Num ano em que irão ser realizadas mais umas Olimpíadas, a preocupação deve ser de todos, ficando o sentimento preocupante de que qualquer coisa pode agora estar em causa, numa sociedade refém do fantasma do terrorismo. E se dúvidas existissem quanto às razões que levaram ao cancelamento da prova, bastaria olhar a primeira página de hoje do Diário de Notícias para percebermos o que impediu que prosseguisse aquele que muitos consideraram já o maior e mais duro rali do Mundo.
É claro que nem só de Dakar se viveu o dia de hoje na nossa passagem pelo Quiosque, e ao olharmos para a primeira página do Jornal de Notícias não deixamos de olhar com alguma apreensão para a notícia que nos dá conta de uma família que vive na rua com um filho de 18 meses, isto apesar da Segurança Social e da junta de freguesia conhecerem o problema. Depois, ainda neste jornal editado na "Invicta" ficamos a saber que a PJ apreendeu cinco toneladas de coca disfarçadas de gelo, uma situação entre muitas que terão justificado a decisão da GNR em fechar menos postos do que os previstos. Contudo, também aqui a condição de refém do mundo ocidental relativamente ao terrorismo, com o JN a ilustrar uma foto dos bastidores do Dakar, no parque de assistências, com uma frase elucidativa: "Terrorismo venceu o Dakar".
Já o Correio da Manhã traz à sua primeira página uma "história de horror no Porto", a propósito de uma mulher de 59 anos que se prostituía para alimentar o vício do filho toxicodependente, o qual acabou por espancar a sua própria mãe, acabando por a deixar morrer por falta de assistência. É caso para dizer que tanto a mãe estava refém do seu próprio filho, como este estava refém de um vício que afecta milhões em todo o Mundo. Depois, ainda no CM, lá está de novo a referência à condição de refém do nosso Mundo perante o terrorismo, com o cancelamento do Dakar. Aqui, porém, o jornal da Cofina destaca o facto da organização da prova que não teve capacidade de enfrentar as ameaças da Al-Qaida ter agora assumido o compromisso de devolver 21 milhões de euros às equipas inscritas na prova.
De passagem para o Público, encontramos como a fotografia principal da primeira página o "desmontar da tenda" do Dakar, com a referência de que uma ameaça terrorista fez acabar o rali antes deste começar. A manchete, porém, mostra como milhares de famílias portuguesas estão reféns da crise económica que vivemos, uma situação que não nos passa ao lado quando lemos que a situação financeira das famílias desceu ao nível mais baixo dos últimos quatro anos.
Refém do seu próprio estilo tablóide está o 24Horas, jornal que fala do Dakar na primeira página com uma pequena referência à preocupação que terá João Lagos neste momento, o qual, segundo este jornal, já estará a fazer contas aos milhões que perdeu. Depois, as verdadeiras manchetes deste jornal são feitas com outros temas, nomeadamente a detenção do futebolista Manuel Fernandes, em Valência, depois de uma agressão a um polícia, ou ainda a apresentação de Carolina Patrício, que segundo este jornal é a nova conquista de Cristiano Ronaldo. Afinal, os futebolistas portugueses que jogam no estrangeiro continuam reféns, também eles, da mediatização que incide sobre os seus actos, sejam estes dentro ou fora das quatro linhas.
E porque hoje é sábado, é dia em que os principais semanários surgem no nosso quiosque, nomeadamente o Expresso que, apesar de ter sido surpreendido ontem, sexta-feira, pela decisão da ASO em cancelar o Lisboa-Dakar, teve ainda tempo de fazer deste assunto a sua manchete, frisando que a Al-Qaeda matou o Rali. Depois, em baixo, quase sem destaque, fica a indicação de que Rui Rio está a ser lançado para uma recandidatura à Câmara Municipal do Porto. Afinal, também este autarca estará refém do facto do seu partido, o PSD, não ter outra alternativa para o lugar de presidente da autarquia da Invicta.
Ao invés do Expresso, o seu mais directo concorrente, o Sol, não teve flexibilidade suficiente para trazer à primeira página o tema do Dakar, pelo menos com destaque, acabando por fazer manchete com a situação do BCP, em volta da qual as candidaturas aos lugares de controlo do mais importante banco privado nacional continuam a dar que falar. Em baixo, ficamos a saber como as nossas crianças e os nossos jovens continuam reféns de quem faz manuais escolares sem qualquer controlo de qualidade, aparecendo estes com textos incompreensíveis. Sobre o Dakar, o Sol limita-se a retomar a história que já havia revelado ontem no seu sítio online, segundo a qual foi o presidente francês, Nicolas Sarkozy, quem suspendeu o Dakar.
Ainda em redor dos semanários, uma nota para o jornal Semanário, nas bancas desde ontem, onde também aqui é a situação do BCP que faz a manchete. Contudo, neste jornal, o que nos chamou realmente a atenção foi a alegada "ordem geral" dada aos elementos do PSD para não comentarem a mensagem de ano novo de Cavaco Silva, a qual foi particularmente incisiva e crítica relativamente à realidade do país.
E para fecharmos esta passagem pelo Quiosque, uma espreitadela para os jornais desportivos para destacarmos a forma como quase todos estão reféns do dito desporto-rei. É que, no dia seguinte ao cancelamento do Dakar, o jornal O Jogo passa olímpicamente ao lado desse tema na sua primeira página, relegando-o para uma pequena chamada de duas linhas, sem qualquer imagem, preferindo dar destaque ao facto de Paulo Bento e António Camacho, respectivamente os treinadores do Sporting e Benfica, estarem proibidos de falhar as vitórias nos seus jogos de hoje. Convenhamos que, do ponto de vista jornalístico, a propósito de uma prova como o Dakar, com partida de Portugal, mais propriamente de Lisboa, e na qual este ano surgia a maior participação de sempre no que dizia respeito a portugueses, esta opção editorial por uma manchete meramente opinativa é, no mínimo, discutível, e deixa evidente o critério pouco rigoroso, ou pelo menos particularmente criticável, dos editores que determinaram a primeira página deste jornal.
Curiosamente, se o jornal O Jogo, quanto a nós, esteve mal, se calhar por esta prova ser mais uma vez um "Lisboa-Dakar" e não um "Porto-Dakar", o jornal Record também não esteve melhor, porque também aqui o assunto Dakar foi relegado para um canto da primeira página, o que é ainda mais criticável se nos lembrarmos que este jornal da Cofina era "media partner" do Dakar'2008. Alexandre Pais e "sus muchachos", naturalmente aqueles que determinam as primeiras páginas de cada edição, preferiram assim colocar o destaque, tal como fez O Jogo, nos embates de Benfica e Sporting, falando em "fome de bola". De facto, só mesmo uma enorme "fome de bola" depois da paragem do campeonato para a passagem do ano pode explicar estas decisões editoriais.
Entre os jornais desportivos sobra então o jornal A Bola, outrora tida como "a bíblia" do jornalismo desportivo, e que fez a diferença ao dar todo o destaque da sua primeira página ao tema do dia. Afinal, nem só de futebol vive o desporto em Portugal, e há mais mundo e mais desporto para além das quatro linhas, pena que os responsáveis pelos nossos jornais desportivos não se dêem conta disso mesmo.
Sem esquecer o dito "desporto-rei", o jornal A Bola refere então na sua primeira página como a Al-Qaeda calou os motores do Dakar transformando a prova num verdadeiro "deserto económico". Pela nossa parte nossa parte, e aproveitando o embalo dos jornais desportivos, limitamo-nos a adiantar o resultado final deste Dakar'2008, um "jogo" que terminou com um golo apontado pelo terrorismo internacional, que valeu a vitória para a Al-Qaeda que assim derrotou uma vez mais o Mundo Ocidental, e desta vez ao abrigo do sistema de "morte súbita" permitida pelo golo apontado. Resta saber se o Dakar, agora refém do terrorismo, será libertado no futuro, ou se o cadáver desta prova virá a ser descoberto num futuro mais ou menos próximo.
Este endereço de email está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
A LusoSaber, Informação & Comunicação Lda. em geral, e o LusoMotores, em particular, agradece aos diversos meios de Comunicação Social, desde jornais a revistas, sejam de âmbito nacional, regional ou local, que nos façam chegar atempadamente a imagem da sua primeira página, em qualquer formato de imagem, e, se possível, um exemplar da sua edição, que pode ser enviado para o nosso endereço que pode ser encontrado na Ficha Técnica. Obrigado.
Apenas utilizadores registados podem introduzir comentários. Por favor efectue login ou registe-se. |