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Conhecido por muitos apenas como o presidente da Direcção do Clube Escape Livre, entidade à qual o LusoMotores dedica uma particular atenção merecida por direito próprio, tal é o impacto da respectiva actividade no mundo motorizado para a região em que se encontra, e que “domina” a partir da Cidade da Guarda, Luís Celínio, o nosso interlocutor nesta curta entrevista, é um observador atento em redor da temática da sinistralidade rodoviária nas nossas estradas, muito por força de ter sido, num passado não muito distante, delegado da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) na cidade da Guarda. E foi exactamente a realidade actual da (PRP), uma entidade “moribunda” por falta de meios, que nos levou a um breve diálogo com Luís Celínio, a quem pedimos uma opinião sobre a realidade do trânsito e da segurança rodoviária em Portugal.
Frisando ser uma temática de tal forma abrangente que não se torna fácil resumir os problemas existentes em meia dúzia de palavras, o nosso interlocutor aceitou, ainda assim, o nosso desafio no sentido de fazer a sua própria análise daquela realidade para os leitores do LusoMotores: “A questão da Segurança Rodoviária sempre foi um tema bastante querido para mim. Recordo que, quando o programa Escape Livre nasceu, em 1973 na rádio Altitude, umas das primeiras acções importantes que o programa organizou aconteceu em 1974, naquela que foi a primeira campanha de Segurança Rodoviária na Guarda”.
LusoMotores – Como foi essa experiência?
Luís Celínio – Naquela altura eu tinha pouco mais de 16 anos e achava que a Segurança Rodoviária era um tema importante a tratar. Avançámos para uma colaboração com a Móbil, que na altura colocava nos seus postos de combustíveis e estações de serviço uns autocolantes a alertar para vários comportamentos e atitudes do condutor que nos pareceram muito interessantes, e que por isso trouxemos para essa campanha de Segurança Rodoviária.
LM – Estamos a falar de algo que se passou há mais de três décadas…
LC – Sim, mas desde então, e ao longo destes 30 anos, o tema da Segurança Rodoviária foi sempre um tema especial para mim e para o Escape Livre, primeiro na rádio, depois no Clube, depois na revista, e mais tarde quando fui nomeado delegado da Prevenção Rodoviária Portuguesa na cidade da Guarda, o que me levou a que, durante mais de 10 anos, tenha colaborado na Comissão Distrital de Prevenção Rodoviária.
LM – Recentemente, os números da sinistralidade, nomeadamente durante os períodos festivos – Natal, passagem de ano e outros –, não foram propriamente simpáticos. Que pensa dos valores revelados?
LC – O que posso dizer perante os números de sinistralidade nas estradas nacionais, e em primeiro lugar, é que foi na verdade muito infeliz a ideia do Governo de terminar com a Prevenção Rodoviária Portuguesa, o que fez estrangulando-o, e terminando assim com um organismo que tinha uma actividade importante. Aliás eu próprio tive a oportunidade de afirmar várias vezes, quer em sede própria quer na Comunicação Social, que a PRP, apesar de algumas limitações e eventualmente alguns erros, era um organismo que merecia toda a confiança e que tinha todas as possibilidades para desenvolver, ainda que com algumas alterações, um trabalho muito importante, algo que sempre procurou fazer ao longo dos últimos anos em Portugal.
LM – Mesmo as coisas positivas terminam.
LC – A verdade é que o fim da Prevenção Rodoviária Portuguesa é uma machadada muito grave naquilo que se tinha vindo a conseguir paulatinamente todos os anos em termos de segurança rodoviária.
LM – Curiosamente, estamos perante um fim não oficial, mas antes inerente ao facto de terem sido retiradas as verbas que eram destinadas à Prevenção Rodoviária Portuguesa…
LC – Exactamente, o que é ainda mais triste. Ou seja, não houve a coragem de terminar, digamos assim, com a Prevenção Rodoviária Portuguesa mas, na verdade, a falta de verbas, o deixar de atribuir as verbas que lhe eram destinadas, impediu a sua continuidade. E a PRP devia continuar, independente de serem sugeridos outros campos de acção, ou de se fazerem outros concursos para outras entidades, porque na verdade existia na PRP um conjunto de pessoas que se dedicavam por inteiro a este tema.
LM – E as actividades eram visíveis…
LC – Sim. Eram feitos concursos junto das camadas mais jovens, desde os jardins infantis até às escolas. Recordo-me, por exemplo, da Taça Escolar de Segurança Rodoviária, que nós dinamizávamos na Guarda, e que fazia deslocar até à Guarda alunos de todas as escolas de todo o Distrito para participarem naquele tipo de acções que eram, na verdade, pequenos contributos para uma melhor segurança rodoviária.
LM – Perdeu-se essa componente formativa?
LC – Pessoalmente, aquilo que mais lamento ter desaparecido, pois penso ser o aspecto mais importante, e ao qual continua sem ser dada a devida atenção, é exactamente à formação. Naturalmente que conseguimos diminuir a sinistralidade rodoviária se tivermos combustíveis mais caros, se as pessoas andarem menos de automóvel, se os custos inerentes ao automóvel forem cada fez mais dispendiosos… se tudo isso se verificar é possível reduzir cada vez mais a sinistralidade, assim como é possível diminui-la se tivermos uma fiscalização cada vez mais apertada, mais forte. Claro que essa fiscalização é necessária, mas é apenas um dos componentes para uma melhor segurança rodoviária, e aquilo que para mim é fundamental e radical para uma mudança de comportamento dos condutores é a formação. E atenção que defendo isso há 30 anos.
LM – Em três décadas muita coisa mudou.
LC – Olhando para a realidade actual, estamos 30 anos atrasados em relação a uma nova mentalidade, uma nova actuação que é necessária na formação dos condutores. Aqueles que andam na estrada e não respeitam os limites de velocidade, desrespeitam um sinal, param num cruzamento e insultam o condutor do lado, permitem que tudo isso seja interiorizado pela criança, seja filho, neto ou sobrinho, que vai no banco detrás, com tenra idade, e que enquanto criança vai interiorizando esses comportamentos como perfeitamente normais, até porque são feitos pelo seu pai, pelo seu avô, pelo seu tio, por uma pessoa que a criança admira. Depois, quando a criança chega à idade de tirar a carta de condução, esses comportamentos surgem perfeitamente naturais, e é esse comportamento que o jovem condutor assume, é esse exemplo que toma como correcto.
LM – Estamos a falar de questões de formação cívica…
LC – Formação em questões cívicas e de comportamento que é importante e que não é dada. Por outro lado, há a questão da formação ao nível da condução propriamente dita, isto porque não temos escolas de condução que ensinem realmente a conduzir. O que acontece é que preparam os candidatos para um determinado exame, para determinadas manobras e mais nada, e os candidatos a condutores ficam a saber de trás para a frente os sinais de trânsito, mas não aprendem a conduzir. As pessoas não sabem as velocidades adequadas, não sabem como se devem comportar perante a condução à chuva, perante uma situação de nevoeiro cerrado, ou tão simplesmente qual a forma mais correcta de condução em auto-estrada.
LM – O que seria importante fazer?
LC – Era importante alterar todo este comportamento e permitir a existência, de facto, de uma formação efectiva. Era importante permitir a melhor formação possível para os condutores de amanhã. Se tivermos uma boa formação acompanhada por uma boa educação, estes dois factores vão permitir, sustentadamente e a longo prazo, uma mudança de comportamento e de atitudes ao volante, e os resultados serão recolhidos na diminuição da sinistralidade rodoviária, mas de uma forma consolidada e real.
Refira-se em jeito de conclusão que já em Setembro de 2006, José Miguel Trigoso, secretário-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa, admitia em sede de Comissão Parlamentar de Obras Públicas Transportes e Comunicações a hipótese de extinção da organização, referindo já nessa altura a falta de verbas como a cusa para o desaparecimento efectivo desta entidade, acusando o Governo de ter mudado as regras de financiamento das acções de prevenção rodoviária.
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