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Ameaças "concretas e directas" à caravana do Lisboa-Dakar, estiveram na base do cancelamento daquele que tem sido considerado ao longo dos anos o maior, mas também o mais duro rali do Mundo. Os serviços secretos franceses garantiram às autoridades de Paris que as ameaças eram mesmo efectivas e para levar a sério, e que haveriam fortes probabilidades de serem perpetrados um ou vários atentados directamente contra a caravana do Dakar, que teria que passar a primeira noite na Mauritânia, curiosamente, no dia 11 do presente mês de Janeiro, com um primeiro bivouac a ser montado em solo mauritano em Atar. A simbologia do dia 11, aliás, reforçou a tese defendida pelos serviços secretos dirigidos a partir de Paris, e o governo de Nicolas Sarkozy foi peremptório ao desaconselhar "vivamente" os seus cidadão a viajarem até à Mauritânia com o Dakar.
A organização da prova, a cargo da ASO, ainda tentou encontrar uma saída para esta situação, mas o governo francês, fazendo fé nas informações recolhidas pelos seus agentes no terreno, foi peremptório, tendo dado indicações concretas à organização do Dakar segundo as quais era "efectivamente" a caravana da prova que estava a ser apontada como "o alvo" para os atentados, em acções devidamente preparadas e concertadas.
Depois da morte de quatro turistas franceses, assassinados na véspera de Natal em Aleg, no sudeste da Mauritânia, em circunstâncias ainda pouco claras, mas que as autoridades francesas acreditam terem resultado de acções terroristas da Al Qaida, o Dakar jamais ficou seguro. Curiosamente, a morte dos turistas franceses não foi reivindicada por qualquer organização terrorista, mas a sua autoria foi atribuída pelo serviços secretos de Paris ao Grupo Salafita para a Predica e Combate (GCPC), uma organização armada argelina que se assumiu recentemente como braço da rede terrorista Al-Qaeda no Magrebe islâmico. Fontes locais admitiam que se poderia ter tratado de um roubo a que os turistas terão resistido, mas a verdade é que, três dias depois, três soldados mauritanos morreram num ataque contra uma base militar, numa acção que continua por esclarecer mas que poderá estar ligada ao primeiro incidente.
Na dúvida, as autoridades francesas terão feito prevalecer a sua tese, o que levou a que as seguradoras envolvidas nesta 30ª edição do Dakar tenham cancelado as apólices acordadas por questões de "efectiva falta de segurança". O governo da Mauritânia ainda se desdobrou em declarações oficiais, reiterando as garantias e segurança para todos os participantes no Lisboa-Dakar, mas a verdade é que a ASO viu-se impossibilitada de arriscar, também pela inexistência de um suporte segurador que pudesse ser realmente eficaz perante qualquer incidente.
A coincidência do dia 11
Esta situação da ameaça das forças terroristas alegadamente associadas à Al-Qaida surge com uma curiosa coincidência que, sendo simbólica, não deixa de não ser significativa, principalmente se tivermos em conta que a simbologia é algo visto com particular importância pelos fundamentalistas islâmicos. É que o primeiro dia em que a caravana do Lisboa-Dakar entraria na Mauritânia seria o dia 11 de Janeiro, numa especial que deveria ligar a cidade de Smara, já no Sahara Ocidental, até Atar, na Mauritânia.
Depois do atentado às "Torres Gémeas" a 11 de Setembro de 2001, e de um segundo atentado, igualmente atribuído à Al-Qaida a 11 de Março de 2004, em Espanha, quando vários engenhos explosivos foram accionados em comboios que se dirigiam para a estação de Atocha, em Madrid, o dia 11 de Janeiro poderia ser um dia paticularmente "apetecível" para um atentado à caravana do Dakar.
Aliás, a história dos atentados atribuídos a terroristas da Al-Qaida tem uma ligação forte aos dias 11 de cada mês. É que, para além dos exemplos já referidos, houve outros atentados sempre no mesmo dia, nomeadamente a 11 de Abril de 2002, na Tunísia, quando um camião-cisterna carregado de gás foi atirado contra a sinagoga de Ghriba, na ilha de Yerba, num atentado reivindicado pela Al Qaida que provocou a morte de 21 pessoas, entre elas 14 turistas alemães. Mais tarde, a 11 de Abril de 2006, mas agora no Paquistão, pelo menos 57 pessoas morreram na explosão de duas bombas numa cerimónia religiosa que reunia cerca de 50.000 sunitas em Karachi.
A lista de atentados em fatídicos dias 11 não pára por aqui. Assim, ainda em 2006, mas a 11 de Julho, 183 pessoas morreram e 900 ficaram feridas numa série de atentados contra comboios e estações de caminhos de ferro nos subúrbios de Bombaim, cuja autoria, segundo as autoridades locais, terá sido de radicais islâmicos que combatem as tropas federais na Caxemira indiana. Nesse mesmo dia, sete turistas indianos foram assassinados e 35 ficaram feridos numa série de atentados com granadas perpetrados na zona turística de Srinagar, a principal cidade da Caxemira indiana, e também aqui atribuídos pelas autoridades aos rebeldes separatistas islâmicos.
Já em 2007, a 11 de Abril, na Argélia, 30 mortos e mais de 200 feridos foi o resultado de dois atentados em Argel contra o palácio do governo e contra uma esquadra de polícia nos subúrbios da cidade. Os actos foram reivindicados pelo braço da Al Qaida no Magreb, o "Baqmi", apontado como o ex-Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC) argelino, que se uniu à Al Qaida em 2006. Três meses depois, a 11 de Julho, ainda na Argélia, 10 militares foram mortos e 35 ficaram feridos em Lakhdaria, uma zona do sudeste de Argel, num ataque suicida contra um quartel reivindicado pelos terroristas do Baqmi.
Por fim, há menos de um mês, no dia 11 do passado de Dezembro, dois atentados com carro-bomba causaram pelo menos 62 mortos em Argel, segundo fontes hospitalares, e 22 segundo um balanço oficial, em frente à sede do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e perto do Tribunal Supremo e do Conselho Constitucional.
Por tudo isto, as ameaças à caravana do Dakar feitas pelos extremistas islâmicas foram mesmo levadas a sério, primeiro pelas autoridades francesas, e depois pela organização da prova, que não pôde confiar na palavra dada pelas autoridades mauritanas, manifestamente insuficientes para garantir por si só a segurança da caravana do Dakar, principalmente quando se sabia que seria exactamente no dia 11 de Janeiro, um mês depois do último atentado na Argélia, que pilotos e máquinas iriam pernoitar pela primeira vez em território da Mauritânia, mais concretamente em Atar.
De nada valeu o Governo mauritano ter-se multiplicado em declarações, nos últimos dias, garantindo estarem reunidas todas as condições de segurança para a passagem do rali pelo país, tendo mobilizado dois mil militares para acompanhar a caravana, que acabou assim por nem sequer sair de Lisboa, para desgosto de muitos pilotos e muitos mais apaixonados pelos desportos motorizados, mas, a bem da verdade, e infelizmente, seguindo afinal um raciocínio frio e calculista da ASO que preferiu não correr riscos desnecessários nem colocar em perigo as vidas humanas de todos aqueles que iriam alinhar na 30ª edição do Dakar.
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