Por entre mudanças e transições, ditadas por legislações e imposições burocráticas, o ano de 2019 foi, para a Consilcar, mais um ano de crescimento, mesmo convivendo com os problemas de sempre, como as dificuldades no averbamento das viaturas, a demorar muito tempo, sem solução à vista no IMT em Lisboa e com as Conservatórias de Lisboa e do Porto a continuarem “péssimas” no funcionamento...

texto: Jorge Reis
fotografia: Carlos Rodrigues

Entidades como a Conservatória do Porto, que com as transferências já pagas chegam a levar mês e meio para as confirmar, provocam desconfianças no consumidor, criando atritos certamente desnecessários com os clientes que não facilitam o trabalho de ninguém e nomeadamente da Consilcar. Isto mesmo é referido por Nuno Silva, ele que com Edgar Condenso conduzem os destinos da empresa.

Para que se tenha uma ideia, conta Nuno Silva que o IMT pode demorar mais de 90 dias para lançar uma matrícula de um carro novo no sistema, mas quando aparece o IUC para pagar surge já com multa e com juros de mora. “Estamos fartos de reclamar isso e ninguém dá resposta”, relata o nosso interlocutor para quem, apesar de tudo, “existe no sector confiança por parte das pessoas, existem cada vez mais profissionais a trabalhar bem, e daí que se sinta um crescimento normalizado do mercado porque existe mais oferta, mais viaturas e aptidão para as pessoas comprarem.”

No arranque de 2019 apontava-se, em média, como volume de comercialização por parte da Consilcar de qualquer coisa como 60 carros por mês, um valor que, de acordo com Nuno Silva, “terá aumentado, se calhar, em cerca de mais 20 por cento”. “O aumento foi de algum modo expectável até porque temos que nos lembrar que o nosso stock aumentou para mais de quatro centenas de unidades, o que implica que a rotatividade aumente o número de vendas, mesmo que essa rotatividade continue lenta.”

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Curiosamente, com o final do ano de 2019 chegaram alguns programas de veículos usados por parte de entidades que até então pareciam não dar tanta importância ao sector, como a ACAP ou a ANECRA. Nuno Silva explica esta realidade com o aparecimento de forma mais efetiva e interventiva da APDCA, a Associação Portuguesa do Comércio Automóvel, relativa ao mercado de usados, que “tem como cavalo de batalha profissionalizar e ajudar a resolver os problemas do sector, a resolver o problema dos anúncios que os portais existentes, porque são máquinas para faturar dinheiro, não os tenham em conta com o devido cuidado, permitindo que alguns carros estejam anunciados de forma errada”.

“Também porque, através da APDCA, nasceu um novo portal, o Pisca Pisca, que trará uma maior transparência ao mercado, transportando consigo um selo de transparência e idoneidade na forma como certas viaturas, dentro dos devidos parâmetros no mercado de usados, irão estar disponíveis para os consumidores com mais garantias de qualidade e transparência naquele novo portal. Também por isso, a ACAP e a ANECRA lembraram-se do mercado de usados, mas porque alguém começou a fazer barulho.”

“Motores a gasóleo vão continuar
a existir daqui por 20 anos!”

20200121 174112Questões de ordem fiscal levaram também a que, em 2019, tenha existido uma maior penetração dos modelos plug-in no mercado. Ao invés, no que diz respeito aos elétricos usados, as pessoas estão ainda algo retraídas, principalmente por não saberem quanto tempo duram as baterias. Contudo, Nuno Silva lembra que “os veículos elétricos usados continuam a ser vendidos neste mercado porque as pessoas que se informam sabem exatamente o que vão comprar.”

Quanto a tendências, será normal que as pessoas possam mudar para uma nova realidade, mas é convicção do nosso interlocutor que Portugal não está preparado para essa mudança: “Digam o que disserem, não há garagens com condições para determinados veículos, os condomínios não estão preparados, a maior parte das instalações elétricas particulares das nossas casas não estão preparadas, há poucos postos de carregamento disponíveis e tudo isso impede a efetiva mudança. Torna-se assim difícil pensar num carro puramente elétrico para quem quer fazer mais quilómetros, que vira a sua atenção para o plug-in, o híbrido, ou o carro a gasóleo que daqui por vinte anos vai continuar a existir nas nossas estradas e em grande número”.

Aliás, a propósito dos motores a gasóleo, Nuno Silva tem uma opinião muito vincada: “O gasóleo dificilmente irá desaparecer algum dia e o normal será a opção por motores a combustão mais pequenos unidos a uma componente elétrica, permitindo assim que as pessoas tenham liberdade e autonomia de movimentos.”

2020 será um ano positivo
com espaço para todos

Olhando para a frente, e porque não há nenhum ano que comece com certezas, 2020 continuará a ser um ano de incertezas. Primeiro porque houve uma alteração de impostos que faz com que as marcas tenham que gerir muito bem os carros que vendem, mas Nuno Silva recusa a ver em tudo isto um problema apontando antes “uma questão de adaptação.”

“Estou otimista em relação a 2020 que será de novo um bom ano, pelo menos desde que não apareça por aí nenhuma nova crise e que ninguém entre em guerra com ninguém. Quanto à realidade do mercado, irá com certeza ser um mix de tudo... irá ter elétricos, plug-in, híbridos, com motores de combustão, terá veículos pequenos, mais ou menos familiares, utilitários, SUV, tudo com o seu preço, com qualidade e respondendo aos níveis de procura. Vai haver espaço para todos!”

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Novas matrículas conformes
às normas europeias

Com o ano de 2020 chega um novo formato das matrículas dos automóveis, com duas letras, dois números e duas letras, mas com outra alteração pela ausência da referência ao mês e ano de produção do automóvel, uma situação que Nuno Silva compreende, aprova e explica: “Só em Portugal é que existem matrículas com a referência ao ano e ao mês. No estrangeiro, quando isso acontece, estamos perante chapas de exportação e a conformidade europeia obriga a que vivamos todos em conjunto.”

“A verdade é que, se fizermos uma viagem a França ou à Bélgica, podemos ter problemas com o nosso carro de matrícula portuguesa porque as autoridades locais olham para ela e acham que a mesma caducou por estar ‘ultrapassada’. Surge por via disso um problema de comunicação e a necessidade de explicar às autoridades locais que se trata de uma particularidade das matrículas em Portugal.”
“A alteração resulta de uma regra de conformidade em que passa a ser tudo igual no espaço europeu. Aliás, surge também um livrete novo para os automóveis que poucos dados traz, e que só um leitor de códigos permite verificar todos os dados do carro de um modo até mais completo comparativamente com os livretes antigos. Mas tudo isto é uma questão de habituação e, tal como acontece no estrangeiro, também cá vamos ter que olhar para o livrete para sabermos o mês e o ano dos carros.”
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