Saudades, meu Deus! Não, não estou a falar do C5 Aircross – podia ser, mas não é – mas sim das viagens de avião, das noites mal dormidas e dos ensaios em estradas desconhecidas. Desculpem os leitores do Lusomotores que só agora passam a ler as minhas lucubrações, mas gosto de personalizar as questões e gosto de falar, diretamente, consigo. Espero que não leve a mal!

Dito isto e pegando no que estava a dizer, que saudades de levantar de madrugada, apanhar um avião e conduzir em estradas desconhecidas. Bom, continuo com saudades das estradas desconhecidas, pois o Covid-19 não nos deixou ir mais além que Madrid e onde andei a experimentar, sozinho (questões de segurança), o novo C5 Aircross Hybrid eram percursos já conhecidos. Enfim, nada que impeça de lhe explicar o que é que a Citroen oferece com esta nova versão híbrida Plug In do seu topo de gama.

Se é adepto dos SUV, junte-se a nós, mas se é adepto dos SUV mas só liga a marcas alemãs, pode fechar a janela e procurar outra prosa, pois aqui estou a falar de um SUV francês que é bem melhor do que o preconceito pode pensar. Enfim, sejam bem-vindos ao primeiro ensaio ao Citroen C5 Aircross Hybrid, aqui, no Lusomotores!

Prós e contras...

Não, não vou falar sobre o programa de televisão, mas sim sobre uma das coisas que todos gostam de ver num ensaio: os pontos a favor e os pontos contra, até porque condensam a análise e servem de ponto de partida para discussões mais ou menos patéticas nas redes sociais. 

A estratégia do grupo PSA é uma e apenas uma: ter versões eletrificadas de toda a gama em 2030 sendo que as variantes puramente elétricas são para os carros pequenos, a hibridização, seja ela média, total ou com carregamento exterior para os outros modelos. É uma estratégia como outra qualquer, mas que já pariu carros como o 208 e o Corsa elétricos (não pode perder, dentro de dias o comparativo entre os dois irmãos), o 2008 elétrico e as versões híbridas de 3008 e 5008, além do 508 e do Grandland X, e muita coisa que vem a caminho.

Portanto, não vou aqui dissertar sobre os benefícios ou os erros da estratégia, mas contar-lhe tudo sobre este C5 Aircross Hybrid, o Citroen que faltava depois dos Peugeot com a mesma motorização.

Pontos positivos

O grupo PSA tem dois sistemas híbridos Plug In (ou recarregáveis): um com tração dianteira e 225 CV e outro com tração integral e 300 CV. Na Citroen foram mais frugais e apenas oferecem, por enquanto, o mais sensato sistema. E digo por enquanto porque na China o C5 Aircross já é vendido há algum tempo com a variante de tração integral. Mas não faça a asneira de esperar que venha o mais potente: nem sempre vale a pena e a Citroen escolheu o sistema com 225 CV porque quer oferecer o carro a um preço aceitável e porque sabe que você, apesar de apaixonado pela Citroen, acha um disparate pagar 60 mil euros por um C5. Verdade? Claro que sim!

Ora, o Citroen C5 Aircross usa, então, o sistema com um bloco Puretech a gasolina com 1.6 litros com 180 CV e 300 Nm, ao qual se junta um motor elétrico com 110 CV e 320 Nm de binário. Contas feitas, são 225 CV e 360 Nm de binário, tudo isto organizado por um complexo sistema de controlo e uma caixa automática de 8 velocidades japonesa que deixa de ter conversor de binário e passa a ter uma embraiagem eletrónica. Detalhes...

Para completar o sistema híbrido, lá está uma bateria de iões de lítio com 13,2 kWh de capacidade, colocada debaixo da segunda fila de bancos e imediatamente à frente do eixo traseiro multibraços. E esta é uma diferença fundamental, pois as versões não híbridas possuem um eixo de torção clássico. Só que neste caso, sem suspensão independente, a bateria não cabia onde está e você ficava sem bagageira, o que, diga-se, não dá jeito nenhum! 

Como este C5 Aircross Hybrid não dá suores frios a ninguém devido á autonomia, deixe-me dizer-lhe que carregar a bateria de 13,2 kWh que permite uma autonomia de 50 km, leva 7h30m numa tomada doméstica. Ui! Claro que é muito, mas ninguém carrega numa tomada doméstica, verdade? Pronto, numa WallBox de 16 amperes leva apenas 3h50m, se tiver 32 amperes ou uma Wallbox de 7,4 kW (que a Citroen vende...) reduz-se para apenas 2 horas. Diria que é bom e que se fizer viagens pendulares, casa trabalho casa, com menos de 40 km, vão passar alguns dias até que o motor térmico tenha voto na matéria...

Até porque quando entrar no seu C5 Aircross Hybrid vai ser recebido por bancos envolventes, muito confortáveis, um painel de instrumentos digital com tudo e mais alguma coisa, totalmente personalizável e um habitáculo acolhedor e bem feito, quer no que diz respeito aos materiais como á qualidade de construção. Oi! Amigo que só gosta dos SUV alemães, ainda está por aí? Sim? Faz bem...

O carro arranca, por defeito, em modo híbrido, ou seja, o motor de combustão interna não funciona até que chegue aos 70 km/h ou que acabe o sumo da bateria. Aqui, o C5 Aircross Hybrid é sublime em termos de silêncio e de refinamento, com performance mais que suficiente para empurrar o carro sem grandes hesitações ou dificuldades e em cidade, então, é brilhante.

A autonomia anunciada de 50 km não é bem assim, mas fica muito acima dos 40 km e com algum jeitinho da sua parte – usar bem a regeneração, mesmo que esta não seja brilhante, aproveitar as descidas para o mesmo objetivo – chega mesmo aos 50 km de autonomia. Não fique ai a remoer... são 50 km no ciclo WLTP e 60 km no NEDC correlacionado. Portanto, a Citroen quase aceitou na mouche!

A caixa de velocidades é suave e um dos pontos muito positivos deste C5 Aircross Hybrid. E se forçar a utilização do motor elétrico através do modo de condução respetivo, o carro consegue andar apenas com a alimentação da bateria até aos 130 km/h. Mas a autonomia ressente-se e a bateria apaga-se depressa. E, deixe-me dizer-lhe ao ouvido... não vale a pena – como vou mostrar-lhe já a seguir – pois rapidamente fica dependente do motor térmico que, sozinho, mostra-se menos à vontade e muito mais guloso. Por isso, não se arme em defensor do ambiente forçando o C5 Aircross Hybrid a funcionar em modo elétrico.

Utilize o modo Hybrid que privilegia o arranque e a utilização de propulsão elétrica até aos 70 km/h, trazendo à peleja o motor de combustão interna quando se ultrapassa aquela velocidade ou precisamos de fazer uma ultrapassagem. Ou se entender que o C5 Aircross terá de ser usado como um C3 R5 do Mundial de Ralis... o que não deixa de ser uma parvoíce tremenda! O sistema desliga o motor assim que travamos ou desaceleramos para que o sistema de regeneração de energia funcione da melhor maneira.

Tenho de dizer que a mais de centena de quilómetros percorridos – com um valente engano que me custou mais 50 km e levou este primeiro ensaio para lá dos 160 km – permitem-me dizer-lhe que o C5 Aircross impressiona pelo aspeto exterior, pelo interior de qualidade e grande espaço, e também pela gestão praticamente perfeita do sistema híbrido. Claro, não há carros perfeitos e este C5 Aircross não foge a essa inevitabilidade.

Sim, é verdade que no Citroen o sistema híbrido gere melhor a utilização do bloco 1.6 litros a gasolina, particularmente quando este é chamado á ação ou obrigado a desligar-se. Ações quase impercetíveis, exceto quando carregamos a fundo no acelerador e há um pequeno compasso de espera, absolutamente necessário para que o sistema consiga ligar o bloco a gasolina, ajustar a caixa automática de coordenar tudo com o motor elétrico. Não irá prejudicar a performance e com o tempo nem vai dar por ela...

Pontos negativos

Mas... e há sempre um mas... a gestão do pedal de travão é o ponto menos positivo do C5 Aircross. Esponjoso, o curso do pedal tem carácter e decisões próprias e uma vez “ataca” bem os discos e a travagem é efetiva, outra vez fica dormente e parece que o carro não vai parar, obrigando a dar um pontapé... desnecessário, no pedal, pois eventualmente consegue imobilizar o C5 Aircross. Culpa de quem?

Pois, estas modernices dos híbridos com recarregamento exterior tal como os modelos puramente elétricos, têm uma travagem “by wire”, ou seja, não há ligação física ou mecânica entre o pedal e o sistema, pelo que fica tudo entregue à eletrónica com os seus caprichos, inconstâncias e tempos de reação que parecem não acompanhar e mente humana. Este é, realmente, o grande defeito do C5 Aircross, a inconsistência e gestão da travagem a partir do pedal.

No fim deste primeiro ensaio, dizer-lhe o seguinte: o Citroen C5 Aircross é um SUV de generosas dimensões, com um interior amplo e bem construído com um sistema híbrido que, nas minhas mãos, gastou 3,2 l/100 km no final deste primeiro ensaio e que funciona de forma quase perfeita, não fosse a travagem. Por outro lado, o comportamento é condicionado pelo enorme conforto (consegue ultrapassar o facto de usar jantes de 19 polegadas!) o que o leva a ser menos incisivo e eficaz no que toca à comparação possível com o Peugeot 3008. Mas é muito mais confortável! De longe!

Claro que tem defeitos: a travagem é menos conseguida, há um ou outro detalhe de acabamento que deixa a desejar, não é carro para grandes feitos quando a estrada enrola e com o sistema híbrido a não ter sido contemplado quando o C5 Aircross foi projetado, perde-se 11 cm de altura na bagageira (de 60 para 45 cm), o espaço é menor e o depósito de gasolina passa de 53 para 43 litros.

Que lhe posso dizer? Gostei, francamente, desta versão híbrida porque é, realmente, económica. Acredito que se vai sentir muito à vontade dentro do C5 Aircross e pode ter um carro moderno e híbrido com carregamento externo por 44 mil euros. Ou seja, se estiver a escolher um carro para a empresa, vai custar-lhe 37.370 euros, deduzindo o IVA, podendo amortizar 100% em sede de IRC, tendo isenção de 75% do ISV e tributação autónoma de apenas 10%. Fique com esta ideia...

José Manuel Costa
LusoMotores em Madrid

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