Paris continua uma cidade linda apesar da pandemia de Covid-19 e, desafiando o vírus que ajoelhou a indústria automóvel mundial, fui de mãos dadas com o LusoMotores até à capital gaulesa para conhecer o novo Sandero da Dacia.

E só vou falar sobre o Sandero porque a Dacia não vai vender em Portugal o Logan, esperando a casa romena do grupo Renault alavancar as vendas que com a pandemia deslizaram para valores pouco recomendáveis.

O LusoMotores foi a Paris conhecer o novo Dacia Sandero, modelo que deverá chegar ao mercado luso lá mais para o final do ano, na variante “normal” ou enquanto Stepway, seja equipado com motores a gasolina ou com bloco o 'mix' gasolina/GPL...
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A maior diferença face ao modelo anterior é a utilização de uma plataforma moderna: no lugar da velhinha e desatualizada B0 da Nissan, o Sandero passa a ter a mesma base do novo Renault Clio, a CMF, estando na frente, até, do Nissan Micra! E para que não ficassem dúvidas, a Dacia foi ao caixote de peças do grupo Renault e deitou mão ao moderno motor 1,0 litros a gasolina com três cilindros. 

Quais são as vantagens? A plataforma é muito mais rígida e oferece a oportunidade de incluir uma moderna e avançada arquitetura eletrónica que permitiu á Dacia enriquecer o equipamento tecnológico com mais conectividade e ajudas á condução e de segurança. Mas há mais!

Passa a estar disponível a caixa CVT burilada pela Nissan, teto de abrir (algo que não havia num Dacia Sandero), câmara de marcha atrás, luzes LED, a direção com assistência elétrica (no atual modelo é hidráulica) e acesso e arranque mãos livres! Ah pois é... o Sandero passa de um carro básico que tem como missão ligar o ponto A ao ponto B, para um sério rival dentro do segmento dos utilitários.

Até parece que já estou a ver as engrenagens do seu cérebro a pensar que com tudo isto, o Sandero vai deixar de ser um carro barato. Não se preocupe! O Sandero aburguesou-se, mas não oferece nada de novo no segmento, apenas coisas que já estão comprovadas e tecnologia já amortizada porque disponível em toda a Aliança Renault Nissan Mitsubishi. Ou seja, os engenheiros da Dacia tiveram acesso ao armazém de peças da Aliança e puderam escolher tudo aquilo que já está disponível. E depois, há muitas concessões. Quer exemplos? 

O Sandero deixou de ter a antiquada e feia antena colocada na frente do carro e passou a ter uma bela barbatana de tubarão. Mas para isso, tiveram de medir o tamanho do cabo e descontar o custo extra dos metros a mais do cabo de antena noutro local. Tudo para que o valor de custo do Sandero não ultrapassasse determinada barreira para não ferir o preço final do carro.

Os responsáveis da Dacia, particularmente Ionut Gheorghe, o diretor de marketing, apesar da minha insistência, não revelaram valores indicativos. Mas posso fazer aqui um exercício especulativo: um Sandero de base começa nos 8.500 euros, no extremo oposto da gama está o Stepway, cujos preços arrancam nos 11.990 euros; ora, com tudo aquilo que o carro oferece agora, acredito que o preço evolua não mais de 2 mil euros. Vá lá, 3 mil euros. Ainda assim, fica num preço absolutamente irresistível. 

E o próprio Sandero está muito mais sedutor, pois a remodelação do estilo foi feliz! Com colaboração dos estúdios de Paris e da Roménia, o Sandero afastou-se do Clio e do Micra, destacando uma silhueta mais robusta que lembra, vagamente, o atual modelo. Porém... tudo é diferente e não ficou pedra sobre pedra: o carro é 10 mm mais baixo, tem vias mais largas, mas as dimensões gerais ficaram na mesma (4,088 mm de comprimento). Quer dizer que as rodas estão mais á face da carroçaria, o que desde logo melhora o aspeto geral e, também, a eficiência aerodinâmica. O para brisas está mais inclinado, os puxadores das portas passam a estar á face e as cavas das rodas têm um debruado que no Stepway é forrado a plástico preto.

Por falar no Stepway, está ainda mais divertido que o anterior. A distância ao solo cresceu 41 mm (174 mm), as rodas são agora maiores, as proteções inferiores são maiores e mais evidentes e as já referidas cavas das rodas forradas a plástico preto. O capô é especifico do Sandero Stepway e a frente também é diferenciada, mesmo que os faróis sejam os mesmos.

A grande diferença, porém, está nas barras do tejadilho que dão ao Sandero o toque final na aparência de crossover, mas que são igualmente práticas. São barras que se movem para o interior e assentam do outro lado para fazer o mesmo papel que um par de barras compradas numa loja de acessórios, suportando 80 kgs de peso. Inteligente! Na bagageira cabem 328 litros de bagagem.

Aberta a porta... wow!!! Aqui há ainda mais diferenças e para melhor. Além do volante já conhecido do Duster – simples mas dos melhores que conheço – e dos controlos do sistema de climatização (conhecidos do Duster e do Captur, por exemplo) tudo o resto é novo. 

Começando, logo, pela qualidade dos revestimentos que ao invés dos habituais plásticos duros são, agora, suaves ao toque. Claro que em locais menos visíveis os revestimentos são de menor valia, algo perfeitamente aceitável. Os bancos são muito melhores e o tabliê muito mais bem desenhado e com tudo orientado de forma horizontal e não vertical como no atual modelo. Sinceramente, dentro do Dacia somos levados para outro nível e estamos em outro nível. O travão de mão é elétrico – o que liberta espaço entre os bancos – a direção está mais suave, diz a Dacia, enfim, o habitáculo para quem está ao volante é uma agradável surpresa.

E como a necessidade aguça o engenho, o Sandero tem um ecrã central de generosas dimensões com um clipe que permite segurar o telefone, mas para quem não queira saber disso para nada e não queira pagar esse ecrã, há uma “dock” engenhosa.

No lugar do ecrã, está um suporte onde cabe o seu smartphone, com tomada USB, que serve, assim, como sistema de infoentretenimento. Genial este Media Control! Para os mais abastados e que gostam destas tecnologias, lá está nas opções o Media Display com ecrã de 8 polegadas sensível ao toque com Apple CarPlay e Android Auto.

Como já devem ter calculado, o Sandero não tem motor a gasóleo, apenas o bloco 1.0 litros com 65 CV, sem turbo, e 90 CV com turbo. Há uma versão híbrida. Sim, a variante a gás natural tem 100 CV e funciona a gás e a gasolina. Portanto é um híbrido e por isso a Dacia não vai estar a onerar o preço do Sandero para ter uma bateria e um controlador elétrico. Esta versão tem um depósito de 50 litros de gás (no espaço do pneu suplente, que desaparece) e outro de 50 litros de gasolina, oferecendo uma autonomia de 1300 km com emissões 11% inferiores quando circula com alimentação a gás, reclama a Dacia. E pronto! Aqui está o híbrido do Sandero, muito mais barato que um híbrido elétrico.

Como referi no início, a Dacia só vai comercializar, em Portugal, o Sandero deixando o Logan de lado (as berlinas com 3 volumes são ignoradas pelos portugueses), mas não foram revelados preços ou cifras de consumos, emissões, enfim, os dados do carro. Mas sabemos que o carro chega no final deste ano ao mercado nacional, pelo que se este texto estimulou o seu interesse no novo Sandero ou no Sandero Stepway – e acredito que este será o esmagador líder de vendas – espere mais algum tempo. E dentro de pouco tempo o LusoMotores vai trazer até si o ensaio aos dois modelos.

José Manuel Costa
LusoMotores em Paris

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