Peço desde já desculpa pelo estrangeirismo, mas “liquidador de ansiedade” ficaria feio e não cabia no espaço para o título. Portanto, ficou “anxiety killer” e faz jus áquilo que é o Hyundai Kauai Electric. Se gosta da mobilidade elétrica, aqui está serviço publico do Lusomotores: leia e perceba que há mais elétricos que os Tesla.

Sabem... sou parte, já, do clube dos velhos empedernidos e tal como eles, quando viram chegar a mobilidade elétrica mais pareciam touros na arena irritados pelo vermelho da capa do bandarilheiro, “marrando” com violência contra os “carros a pilhas”. Aprendi lição valiosa: nunca desdenhar uma ciência que desconhecemos!

Tudo isto para lhes dizer que a Hyundai não para de me surpreender e com este Kauai Electric ajoelhou-me. A casa coreana caminhou pela estreita vereda do preconceito depois de chegar ao Velho Continente com carros feios porcos e maus carregados de equipamento, algum dele perfeitamente desnecessário e que só adicionavam problemas de fiabilidade, mas a preços que deixavam qualquer um de boca aberta.

Mantendo-se fiel aos seus princípios, a Hyundai manteve a caminhada, estugou o passo e hoje é um dos mais importantes “players” do mercado mundial. Encarou de frente o desafio da mobilidade elétrica e se numa primeira fase apareceu com uma inovação – um carro com três ideias de eletrificação: híbrido, híbrido PlugIn e elétrico – o Kauai esbofeteou a concorrência, sendo uma das melhores combinações de versatilidade e facilidade de utilização do mercado de modelos elétricos. Ainda por cima, mantendo um preço aceitável com autonomias ao nível de um Tesla. Mas o preconceito... ah! o preconceito...

Diferente do Ioniq

O Kauai Electric tem uma plataforma dedicada em forma de skate, ou seja, as baterias estão alojadas entre os eixos e os elementos elétricos alojados na frente do carro. Com dois pacotes de baterias (64 kWh e 39 kWh), o Kauai é vendido entre nós apenas com o pacote mais potente, o tal que oferece até 449 km de autonomia. Diferenças para o Ioniq? As baterias são refrigeradas a água e não a ar, a plataforma é exclusiva e o carregador e bordo é diferente: tem 7,2 kW e a mesma ficha que é utilizada por Mercedes, BMW, Ford e Volkswagen.

Para recarregar 80% dos 64 kWh, são precisos 54 minutos com uma “wallbox” de 100 kW, mas excruciantes 31 horas numa ficha doméstica. Com uma “wallbox” tradicional de 7 kW, o tempo de recarga dura, ainda, 10 horas!

Quase me esquecia... o Kauai Electric é muito semelhante ao modelo convencional, destacando-se a frente fechada onde estão os acessos às fichas, as jantes diferentes e os logótipos a dizer “Electric”. Tudo o resto está, basicamente, na mesma.

Interior decalcado, exceto uma ou duas coisas

O interior do Kauai exibe o mesmo estilo, a mesma aparência e até o mesmo nível de habitabilidade, versatilidade e utilização que o Kauai convencional. O que é uma pena pois o carro não não é particularmente generoso em termos de habitabilidade. No banco traseiro só há espaço para dois adultos ou três crianças. E na frente, alguém mais alto terá alguma dificuldade em termos de espaço para a cabeça. Na bagageira há 330 litros de capacidade, o que coloca o Kauai entre um utilitário e um familiar, mas face aos outros Kauai, o espaço disponível debaixo do piso da bagageira não é utilizável pois lá estão os cabos de carregamento e o sistema de reparação dos pneus.

A qualidade percetível do Kauai não é fabulosa, com alguns plásticos de menor valia, mas tudo está montado com qualidade e os barukhos vão ser menos do que o que aparentemente poderia suceder. 

Grande diferença está na consola central com estilo próprio com botões sem ligações físicas para controlar a transmissão (botões D, R, N, P) e para o travão de mão elétrico, bem como algum espaço adicional para arrumar objetos. Nada disto existe nos outros Kauai. 

Autonomia é o segredo

O Kauai Electric promete acabar com a ansiedade da “ohhhhh está a acabar a carga da bateria!!” Se formos cuidadosos os valores são fantásticos e com uma média de velocidade de 90 km/h, a autonomia ronda os 480 km. E se andarmos mesmo com cuidado e a velocidades médias abaixo dos 50 km/h, a autonomia cresce para perto dos 500 km. Impressionante! Ah! e em autoestrada com uma média de 120 km/h, a autonomia fica nos 380 km, descendo para os 300 km se a média subir para os 130 km/h. Percebe agora a razão do título?

Agora, vamos à outra face da moeda... pensavam que eram só coisas bonitas?! Autonomia não rima com peso baixo, sabem porquê? Porque para andar mais quilómetros a bateria tem de ser maior, logo, mais pesada. E os quilos amontoam-se ao mesmo ritmo que temos de aumentar a capacidade da bateria para acabar com a ansiedade. Mais peso, menos agilidade e menos performance. Vá lá, uma circulatura do quadrado...

No sempre complicado jogo das compensações, em primeiro lugar, há que diminuir a resistência ao rolamento para que haja menos forças para vencer e assim gastar menos energia. Como? Com pneus de baixo resistência ao rolamento, prejudicando a aderência mecânica, incrementando o apoio aerodinâmico. Por isso, a frente fechada, as jantes aerodinâmicas e o fundo totalmente fechado. Mas, do outro lado fica o comportamento. O Kauai Electric tem as mesmas suspensões do Kauai convencional, com barras estabilizadoras que controlam bem o rolamento da carroçaria, mantendo-a mais ou menos direita quando em curva. Tem, também, o eixo traseiro multibraços reservado ás variantes mais potentes e com tração integral. 

Porém, o excesso de peso atinge, em cheio, os conjuntos mola-amortecedor, que em algumas situações, tal como lombas ou bandas sonoras ou, ainda, piso mal-tratado, têm dificuldade em controlar as oscilações verticais. Em curva, essa situação também se coloca quando abusamos da velocidade de entrada.

O conforto não é fantástico, pois há muito ruído de rolamento devido aos pneus de baixa resistência ao rolamento, parecendo, algumas vezes, que rodamos em cima de placas de madeira. Junta-se a isto tudo a falta de sensibilidade da direção. Poderá estar a pensar que o carro é uma porcaria. Calma! Está totalmente enganado pois a Hyundai votou ao jogo dos compromissos e sabendo que iria ter dificuldades com o peso da bateria e do sistema de controlo, oferece de série excelentes ajudas eletrónicas que permitem ir muito além do que seria possível de decidirmos prescindir da eletrónica. Até porque sem estas belíssimas ajudas, o excelente binário do motor será sempre um problema e não uma bênção. Até porque os pneus de baixo atrito não são minimamente capazes de se agarrar ao chão.

E para lhe provar isso, um arranque mais violento carrega-nos para a condução de carros com mais de 300 CV, pois o motor elétrico é generoso na entrega de binário e á saída das curvas, esse mesmo binário atira-nos para o outro lado da estrada sem apelo nem agravo. Por isso, é bem melhor não perder tempo a ver-se livre da eletrónica. É um desperdício de tempo, energia e, sobretudo, um risco desnecessário. Eu corri esse risco, mas pelo bem da sua saúde. Um trabalho duro... mas alguém tem de o fazer, não é verdade?!

Com a eletrónica ligada, o Kauai é um carro fácil de conduzir, eficaz e razoavelmente confortável. Claro que o SUV elétrico da Hyundai não é um carro para quem gosta de sentir prazer na condução. Faz tudo bem, consegue esticar a autonomia até aos limites e por isso, tudo o resto acaba por ser desculpado. 

Já agora, dizer-lhe que o motor elétrico do Kauai tem 204 CV e um binário de 395 Nm, disponível instantaneamente, leva 6,7 segundos dos 0-100 km/h e a recuperação de aceleração entre os 50 e os 110 km/h é de 5,8 segundos. Não fica longe de alguns desportivos! 

Para os mais distraídos, o Kauai Electric está equipado com o “virtual engine sound system” que emite uma imitação de um motor a funcionar, sendo este um aspeto de segurança e que só funciona a baixa velocidade. Sem o sistema, o carro é muito silencioso e nem sequer se ouve o habitual zumbido do motor elétrico. Mas quando exigirmos tudo dos 395 Nm de binário, parece que vamos dentro de um gigante carro de rádio controlo, tal o “whiiiiii” que se escuta dentro do Kauai.

Destaque, ainda, para o sistema de regeneração de energia, controlado pelas patilhas colocadas atrás do volante. Não é uma novidade, mas bem aproveitado oferece mais uns quilómetros de autonomia. Mesmo com o irritando “whiiiiiiiiiii” nos ouvidos. 

Este sistema de recuperação automática do Kauai utiliza os sensores do cruise control adaptativo para avaliar, constantemente, a distância para o veículo da frente permitindo que o condutor possa deixar o carro no máximo de eficiência até que o tráfego o leve a ter de reduzir essa regeneração. Pode também escolher alternar entre o mínimo e o máximo de regeneração de forma instantânea sem utilizar o pedal de travão (assegurando que há máxima regeneração) apoiando-se apenas na patilha do lado esquerdo. Se pressionar essa patilha, passa do mínimo ao máximo e o carro praticamente para.

Finalmente, dizer que o sistema do Kauaia Electric permite que possa remover, completamente, a influência do motor elétrico na ação do pedal de travão. Assim, a sensação do pedal de travão vai do péssimo no modo Eco, ao agradável nos modos Normal e Sport. Se desligarmos as ajudas à condução, o pedal de travão passa a ser convencional e atua, apenas, no sistema de travagem. Grande coisa pode estar a pensar, mas se já conduziu um veículo elétrico ou híbrido, sabe que a agradabilidade de condução passa, também por estes detalhes.

Veredicto

POSITIVO...
Habitabilidade
Comportamento dinâmico
Alguns detalhes nos acabamentos

...OU NEM POR ISSO

Autonomia efectiva
Motorização elétrica
Facilidade de utilização

Não é surpresa... adoro o Hyudai Kauai Electric! A mecânica, potente e cheia de capacidades, mas muito utilizável e com um sistema de regeneração fantástico. A autonomia de 449 quilómetros que muitas vezes fica acima disso. Com a eletrónica ligada, é um carro facílimo de conduzir. É um carro muito giro!

Claro que há coisas que precisam ser revistas, e por mais de 43 mil euros devemos exigir sempre um pouco mais, mesmo que muito destes 43 mil euros sejam da bateria. Portanto, para mim, este é dos melhores elétricos á venda no mercado e, sobretudo, com a autonomia certa para poder dizer que é um verdadeiro “anxiety killer”.

FICHA TÉCNICA
Motor

Tipo: elétrico sincrono
Cilindrada (cm3): na
Diâmetro x Curso (mm): na
Taxa de Compressão: na
Potência (CV/rpm): 204
Binário (Nm/rpm): 395

Transmissão Dianteira, caixa de uma relação
Direcção Pinhão e cremalheira assistida eletricamente

Suspensão (ft/tr)

Duplo triângulo sobreposto/eixo multibraços

Travões (fr/tr)

Discos ventilados/discos

Prestações e consumos

Aceleração
0-100 km/h (s)

7,6

Velocidade máxima (km/h): 167
Consumos extra-urb./urbano/misto (kWh/100 km): 15,2
Emissões CO2 (gr/km): 0
Dimensões e pesos
Comprimento/Largura/Altura (mm): 4180/1800/1570
Distância entre eixos (mm): 2600 

Largura de vias (fr/tr mm):

nd

Peso (kg):

nd

Capacidade da bagageira (l):

332 a 1114
Deposito de combustível (l): na
Pneus (fr/tr): 215/55 R17

Preço da versão base (Euros):

43.350

Preço da versão Ensaiada (Euros):

43.350

José Manuel Costa/LusoMotores

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