O Supra é uma espécie de amigo do coração! Quem o disse foi Akyo Toyoda, o patrão da Toyota, apaixonado de longa data pelos carros desportivos e tenho tendência para concordar com o veterano executivo japonês. A única que me faz erisipela é o que está debaixo da pele do Supra...

É que, olhando assim, despreocupadamente, para o Supra ninguém diz que a base é a mesma do... BMW Z4. Sim, este Toyota que recupera o nome “sagrado” Supra é, na essência, um BMW. Convirá saber porque razão eles são tão iguais e, olhando para eles, tão diferentes.

Em primeiro lugar dizer que os dois carros foram desenvolvidos, na parte final, por equipas distintas, por isso um é que o Toyota é um coupé, o outro é um roadster. A base é a mesma, mas um mundo separa-os. O Supra é muito mais musculado que o Z4 e, na minha opinião, é mais giro que o alemão.

As proporções são musculadas, sendo isso bem evidente nas cavas das rodas traseiras que fazem parte de uma traseira arredondada que rima com uma frente que imita o nariz de um Fórmula 1. Enfim, um desenho que tem a particularidade de nos fazer perceber, sem dúvidas!, onde está o motor e quais as rodas que se ocupam da tração.

Evitável era terem sido espalhadas pelos carro tanta saída e entrada de ar... falsa! Olhe para as fotos: todas as entradas de ar no capô, nas portas, nas ilhargas, por baixo dos faróis e dos farolins traseiros, tudo falso.

O choque quando se entra no interior do Supra é grande e percebo que os puristas até torçam o braço perante o conjunto motor, caixa, diferencial e mais um par de coisas da BMW que não são visíveis porque estão debaixo do belo manto do Supra. 

Mas o que se passa no interior já é mais difícil de engolir. Isto porque, por dentro, o Toyota Supra... é um BMW. Qualidade a rodos, tecnologia, enfim o Supra beneficia de tudo aquilo que a marca alemã faz bem feito. Claro que os guardiões da tradição mandam tudo isso às malvas, mas o que se passa dentro do Supra, mesmo não sendo a melhor ideia, tem uma lógica. E uma lógica que tem a ver com custos e que se não fosse respeitada, iria dar origem a um projeto abandonado. Eu explico.

Toda a mecânica vinda da BMW não podia vir sozinha, pois estamos no Século XXI. No passado, trocar motores era simples, um par de cabos e estava feito. Hoje isso não é possível e por isso, ao escolher a mecânica BMW, foi preciso trazer agarrada a gestão eletrónica. Isso acarreta utilizar o sistema iDrive, enfim, utilizar os ecrãs e o software da BMW. Ora, a não ser que a Toyota quisesse gastar todo o dinheiro que poupou com a escolha da mecânica BMW, fazer tudo isso de raiz é impossível. 

Mesmo assim, ainda é possível ter um conta rotações que é Toyota e um painel de instrumentos japonês. Já o volante, controlos da climatização, comandos do volante, da coluna de direção, botões e até do sistema de áudio, são... BMW.

Olhemos para as coisas boas. Primeiro, a posição de condução. Excelente, pois ficamos com o rabo bem baixo – dá para sentir como o chassis funciona – com o encosto do banco a abraçar-nos com o apoio correto que ainda pode ser regulado, mas a base do banco é curta. Ironicamente, falta ali a extensão da base do banco regulável que existe nos... BMW.

No que toca à motorização, o Supra honra o modelo original oferecendo um belíssimo seis cilindros. Pronto, não é um bloco Toyota feito pela Yamaha ou pela Subaru, mas é um seis cilindros em linha. É um velho conhecido de muitos modelos da BMW e se nos regimes médios é excelente, falta-lhe um pouco de fôlego no topo do conta rotações de nada valendo levar o motor cima das 5500 rpm.

A Toyota diz que mexeu no motor, no seu carácter e até na curva de binário, mas o barulho, o tato e até a exploração do motor é típico da BMW, aliás, sentado no banco do lado direito, como passageiro e descontando o sintetizador de som que respira para dentro do habitáculo, fechei os olhos e esquecendo que estava no Supra... o meu cérebro dizia BMW. A caixa automática de oito velocidades é algo lenta e as patilhas só parecem ampliar essa lentidão, particularmente nas primeiras relações e no modo Sport. Dizer que só há dois modos, Normal e Sport e que a caixa tem modo manual sequencial.

Para os que têm curiosidade sobre os consumos, 7,5 l/100 km oficiais são uma utopia  e para desfrutar de tudo o que o Supra tem para oferecer, temos de alargar os cordões à bolsa. Com algum recato e sem desfrutar das capacidades do Supra, pode conseguir uma média de 8.9 l/100 km. Cheguei lá, mas a média final ficou nos 11 litros, pois é quase impossível andar a passear com o Supra. Mas também tenho de dizer que nunca o computador de bordo me devolveu valores acima dos 15 litros. Por mim... excelente!

Supra é reativo, equilibrado e veloz... muito veloz! 

POSITIVO...

Motor
Comportamento
Refinamento

...OU NEM POR ISSO

Demasiada presença BMW

O Supra é um carro reativo, equilibrado, inspira confiança e é veloz, muito veloz. Seguindo a fórmula da distância entre eixos curta e vias largas, a Toyota conseguiu empacotar toda a mecânica alemã num coupé que é um prazer conduzir.

A direção é leve e precisa, o eixo dianteiro vai para onde o mandamos através do volante e se o carregarmos á entrada das curvas, o chassis enrola de forma perfeita sejam curvas lentas ou rápidas, com o eixo traseiro a escorregar o suficiente. Se carregarmos muito a frente, a escorregadela pode ser maior se desligar o controlo de tração e de estabilidade. Mas o chassis comunica connosco e sabe-se, perfeitamente, quando a traseira vai rodar.

A suspensão não é absurdamente dura e a direção, como já disse, é direta e com o peso certo, particularmente no modo Sport, com uma rapidez impressionante. A curta distância entre eixos torna o Supra ágil numa estrada de montanha, as vias largas asseguram a estabilidade. É realmente impressionante o eficaz comportamento do Supra.

Para adicionar mais interesse, o Toyota Supra é benigno para o condutor: em mãos experientes pode atrasar a travagem, forçar a carga no eixo dianteiro, deixar o chassis rolar e acelerar com tido à saída, que dificilmente haverá sobreviragem ou subviragem. Em mãos menos experientes ou hábeis, pode travar mais cedo, sacrificar a entrada e sair com gás a fundo sem que o chassis se perturbe. A travagem tem discos e maxilas generosos e a potência do sistema é excelente, mas os discos ventilados não são perfurados (?!) e numa utilização intensiva começa a denotar fadiga. 

Esqueça lá essa coisa do Supra ser um BMW. Sim, a mecânica é toda ela alemã e muita coisa do interior é germânica, mas o Toyota Supra destaca-se por ser um... Supra! As pessoas viram a cabeça à passagem do Supra... espetaram o nariz nos vidros do Toyota durante os dias que ele esteve comigo... enfim, é um carro que dá nas vistas. 

Contas feitas, é um coupé de excelente qualidade, com amplo espaço interior, muito bem equipado, muito bonito, veloz e superiormente divertido de conduzir.

FICHA TÉCNICA
Motor

Tipo: 6 cilindros em linha, injeção direta e duplo turbo
Cilindrada (cm3): 2998
Diâmetro x Curso (mm): 84 x 94,6
Taxa de Compressão: 11,1
Potência máxima (CV/rpm): 340/5000 – 6500
Binário máximo (Nm/rpm): 500/1600 - 4500

Transmissão Tração traseira, caixa automática de 8 velocidades
Direcção Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

Suspensão (ft/tr)

Independente, McPherson; independente multibraços

Travões (fr/tr)

Discos ventilados

Prestações e consumos

Aceleração... 0-100 km/h (s)

4,3

Velocidade máxima (km/h): 250
Consumos extra-urb./urbano/misto (kWh/100 km): -- / -- / 7,5
Emissões CO2 (gr/km): 170
Dimensões e pesos
Comprimento/Largura/Altura (mm): 4379 / 1854 / 1292
Distância entre eixos (mm): 2470

Largura de vias (fr/tr mm):

1594 / 1589

Peso (kg):

1495

Capacidade da bagageira (l):

290
Deposito de combustível (l): 52
Pneus (fr/tr): 255/35 ZR19/275/35 ZR19

Preço da versão base (Euros):

81.000

Preço da versão Ensaiada (Euros):

81.000

 

José Manuel Costa/LusoMotores

Pin It