Conseguiu em África, no arranque do presente ano, enfrentando as pistas do deserto e dominando o exigente volante de um camião de competição, chegar à vitória no Rally Africa Race, mas depois da vitória veio uma paragem e a necessidade de reencontrar o caminho com a competição, com o todo-o-terreno e com África, até porque, garante, “o bichinho está lá a puxar por um regresso!”

Depois de um ano que terminou da melhor maneira, com a vitória no Rally Africa Race ao comandos do “seu” camião MAN liderando a equipa Bio-Ritmo, o ano de 2019 está a ser percorrido de uma forma algo difusa, situação que deu o mote para o início de uma agradável conversa com Elisabete Jacinto, piloto sobejamente conhecida no todo-o-terreno e nos camiões, com passagens pelo Dakar e mais recentemente pelo Africa Race, que começou por nos fazer um balanço do que foi o ano de 2018.

E se o ano terminou em beleza, com a vitória no Africa Race, a verdade é que a mesma prova havia sido madrasta para Elisabete Jacinto no arranque de 2018, quando partiu o diferencial do camião: “Vim para casa muito mais cedo, com uma grande desilusão, e a questionar-me se valia a pena trabalhar tanto se não conseguia ter os resultados que eu gostava de ter. Por essa altura eu tinha consciência que já tinha atingido um bom nível de condução e corria muito atrás do sonho de conseguir um dia ter uma boa classificação, um bom resultado desportivo, que para mim passava por chegar ao pódio e garantir o primeiro lugar, um sonho que vinha a perseguir ao longo de todos estes anos.”

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Depois do abandono naquela prova, as adversidades não acabaram para Elisabete Jacinto que, logo a seguir, no Maroc Desert Challenge, voltou a ser afectada por problemas mecânicos no seu camião, ficando impedida de garantir resultados vencedores, tudo isto num ano que define como “frustrante”. Certo é que continuou a trabalhar, a preparar-se da melhor forma para o Africa Race, mas no último momento tudo se complicou: “Parti para Africa com a sensação de que a probabilidade de as coisas correrem mal iria ser muito grande!”

“Vivi cada dia do Africa Race como se fosse o último...”

Mais do que pessimismo, Elisabete Jacinto voltou a enfrentar esta prova “com um sentimento de frustração enorme, mas decidida a dar o máximo enquanto estivesse em prova”, sempre desejando que a sorte estivesse do seu lado. É que, apesar de ter havido um forte investimento em peças como amortecedores, ou nas jantes de alumínio que permitiam baixar um pouco mais a pressão, Elisabete sabia que havia “um pontinho negro no camião.”

“Havia uma peça para a qual a probabilidade de partir era muito grande. Tínhamos mandado fazer outra mas, à última hora, a peça ficou mal feita e não pudemos corrigir essa falha. O Africa Race começou, as coisas começaram a correr bastante bem, fui sempre fazendo o melhor que pude e os ventos correram de feição pelo que acabei por conseguir a prova que sonhava fazer. Senti-me finalmente realizada pois consegui provar que tinha um bom nível de condução e que, mesmo com uma equipa pequena, um orçamento baixo e um camião de série, consegui andar a taco-a-taco com equipas muito mais ‘racings’, orçamentos muito mais altos e camiões muito mais competitivos, e no fundo era isso que eu pretendia.”

“Ser professora é uma profissão que não desaparece nunca!”

Antes de apostar a sério no desporto motorizado, Elisabete Jacinto era professora, algo que nos levou a querer saber onde anda a professora dentro da piloto?

— A professora anda sempre cá porque faz parte de mim, foi uma profissão que escolhi por gosto, por vocação, e não desaparece nunca, apesar de não estar a dar aulas. Apesar de tudo, há sempre uma ou outra situação que surge, onde as pessoas me convidam para ir às escolas, continuo a ir às escolas de vez em quando, a universidades e a empresas, e tenho sempre oportunidade de partilhar os meus conhecimentos, o que é sempre giro e permite-me fazer sempre um pouco do papel da professora.

Ao longo da prova nunca se esqueceu que havia no seu camião uma peça que podia partir e deixá-la parada no meio das dunas do Africa Race, confessando mesmo que “cada dia foi vivido sempre como se fosse o último”.

“Isso também nos deu um gozo especial, de podermos poder chegar à meta em cada dia e dizer ‘este já está, já temos mais um’. Nos anos anteriores tive sempre a convicção que estava tudo bem e poderíamos fazer um bom resultado e a verdade é que abandonei sempre à segunda ou terceira etapa. Desta vez, porém, quando já começava a duvidar de tudo, da minha capacidade e dos objectivos a que me propus, a verdade é que finalmente tudo correu bem e isso foi óptimo.”

Em termos práticos, Elisabete Jacinto foi fazendo a sua prova “um dia de cada vez”, sempre pensando que a qualquer altura poderia ter que ficar pelo caminho e que um qualquer dia poderia ser o último, mas determinada a que mesmo um eventual último dia seria seguramente “o melhor de todos”.

Esta forma de enfrentar as possíveis adversidades levou-nos a querer saber como é a Elisabete Jacinto. Estaríamos perante uma pessoa optimista ou nem por isso? Com um sorriso, a nossa interlocutora definiu-se como alguém “relativamente optimista”. “Não sou daquelas pessoas que se agarram às probabilidades das coisas correrem mal, pelo contrário acredito sempre que as coisas podem correr bem. Normalmente, sou daquelas pessoas que pensam que o futuro fazemo-lo nós hoje mesmo, e podemos ir construindo aquilo que queremos para amanhã”, disse.

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Certo é que, contrariando o adágio popular que diz vir a bonança depois da tempestade, Para Elisabete Jacinto, depois da bonança do triunfo veio o tal período difuso agra atravessado, quando não sabe ainda o que irá fazer. Será que se pendura o volante?

“Não se pendura o volante ainda! Estamos numa fase de mudança, em fim de ciclo, percebi ao longo destes anos que a probabilidade de ter sucesso era alguma, mas a probabilidade de falhar também lá estava, e isto porque é muito difícil fazer o que conseguimos ao longo de todos estes anos. Fizemos um trabalho extraordinário e quase que conseguimos fazer milagres, e também por isso terá chegado a altura de repensarmos as coisas e partirmos para uma nova fase do projecto.”

“Ter a equipa, ter o camião, ser responsável por tudo e querer construir tudo, mas não tendo eu aqueles conhecimentos de mecânica que eram necessários para fazer as evoluções que precisávamos e não tendo os meios técnicos precisos para dar a volta às situações para construir e melhorar, tudo isso tornava verdadeiramente a nossa missão.”

Fez por isso sentido terminar um ciclo e partir para outro, para ver se será possível colocar outro projecto de pé, algo que ainda não sabe qual será nem como será. “Espero que continue a ser interessante e onde eu possa continuar a fazer algumas conquistas.”

“Sempre fui confrontada com o descrédito por ser mulher!”

Logo depois de ter chegado a Lisboa, transportando na bagagem a conquista do Africa Race, Elisabete Jacinto deu uma entrevista em que o foco do diálogo com o jornalista resultou do facto de ser mulher, surgindo a questão sobre a maior dificuldade para uma mulher em enfrentar estes palcos de situações extremas. A vitória, disse, deu-lhe “um sabor especial” pelo facto de Elisabete Jacinto ter a convicção de que “as pessoas não acreditavam que, sendo mulher, conseguiria tamanho triunfo.”

Mergulho recreativo e caminhadas pelos campos... 

A luta pelos objectivos do dia-a-dia e da actividade desportiva tem que ser “compensada” com outras actividades e outros ‘hobbies’. Que ‘hobbies’ é que ocupam o tempo a Elisabete Jacinto?

— No início o todo-o-terreno era um hobby. Depois, começou a ocupar mais espaço na minha vida, mais tempo, e houve altura em que não tínhamos um escape. Lá em casa somos dois e quando um tentava aliviar o outro vinha com um problema para resolver. A certa altura precisámos de encontrar um hobby onde pudéssemos afastar-nos completamente do todo-o-terreno, e a opção foi o mergulho recreativo. Eu e o Jorge (o marido) vamos os dois para baixo de água com as máquinas fotográficas — um pouco o “cúmulo do todo-o-terreno” — e aí funcionamos um pouco ao contrário, porque é o Jorge a vedeta, é ele que faz fotografias fabulosas, e eu só tenho que lhe dar apoio e garantir que ele regressa ao barco, apesar de ele nunca saber onde está. Mais recentemente surgiu outro hobby que é algo muito simples e muito fácil que é o hobby das caminhadas. Basta calçar um ténis bons, por uma mochila às costas com uma garrafa de água e ir pelo campo fora. Andamos que nos fartamos, mas esse caminhar deixa sempre qualquer coisa muito bom porque vimos para casa cheios de verde, porque o stress desaparece e a cabeça se solta.

“Uma das coisas com a qual eu mais fui confrontada ao longo destes anos todos foi com o descrédito das pessoas de uma maneira geral, e por ser mulher. Se fosse homem, se calhar, eu teria os aplausos de toda a gente e as pessoas teriam acreditado que eu, eventualmente, poderia ganhar. Mesmo neste Africa Race, andei sempre nos lugares da frente mas sempre muito ignorada até ao momento em que cortei a meta e consegui provar que tinha ganho. Se eu fosse homem, as pessoas teriam acompanhado com aquele entusiasmo de que ‘ele vai ganhar, é português e vai conseguir ganhar’, mas a verdade é que isso não aconteceu.”

“Assim, tive uma luta muito particular ao longo de todos estes anos, que teve esse acréscimo que resultou do facto de não ter o crédito das pessoas”, acrescentou Elisabete Jacinto, convicta de que as pessoas “nunca acreditaram” que poderia chegar onde chegou, “e isto porque todos nós somos ensinados que as mulheres não têm aptidões e não são capazes, e por via disso generaliza-se a cria-se um estereótipo, recusando tudo aquilo que não entra nas nossas ideias pré-concebidas.”

De algum modo, Elisabete Jacinto terá ajudado a abrir outro caminho e a mudar algumas mentalidades, fazendo ela votos de que tenha constituído “um exemplo, não só para as mulheres mas também para os homens, no sentido de fazer valer a necessidade de ver as coisas com mais sentido crítico e avaliar as situações com maior objectividade”. “Não nos podemos deixar levar por preconceitos, nem por coisas em que acreditamos sem as questionarmos verdadeiramente. No fundo, o meu principal mérito foi ter deixado um exemplo de que é possível fazer algo desde que a queiramos fazer, desde que acreditemos que somos capazes, desde que se trabalhe e que nos dediquemos muito, tudo se consegue!”

“Conseguir algo não acontece por sermos homem ou mulher mas antes porque queremos muito, porque lutamos e nos esforçamos, e todas as pessoas podem ter mérito, conseguir fazer uma coisa fabulosa, e não podem ser arrumadas numa prateleira e postas para o lado, apenas porque não encaixam naquele perfil que estamos habituados a reconhecer”, frisou Elisabete Jacinto, ela que provou que no momento em que a capacidade está lá bem presente, os resultados vêm à superfície e acontecem.

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Olhando agora para a frente, esta piloto campeã espera ter nova oportunidade de voltar ao continente africano, e explica: “Eu tenho uma paixão especial por África, aprendi a estar em África e consigo neste momento farejar os problemas, encontrar as soluções, sei estar, nada me intimida, nada me assusta e é uma área onde eu consigo rentabilizar com muita facilidade. Comparando com o campeonato nacional de todo-o-terreno, não sei se o conseguiria fazer tão bem porque é um meio completamente diferente daquilo a que estou habituada. Especializei-me de tal forma nos circuitos africanos que não sei se cá faria bem ou não.”

E porque as dificuldades em criar condições para outros voos são efectivas, Elisabete Jacinto deixa uma garantia: “Todas as condições que eu criar vão ser vocacionadas para voltar a África. O bichinho está lá sempre a puxar por mim e era lá que eu gostava de voltar a fazer mais algumas corridas e continuar a fazer bem. Era isso que eu gostava muito. Vamos lá ver!”

texto: Jorge Reis
fotografias: Carlos Rodrigues

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