José Manuel Carvalho é o Director Geral da BiosafeA defesa do ambiente é algo que tem vindo a preocupar um número crescente de pessoas em todo o Mundo, e as técnicas tendentes à redução dos resíduos prejudiciais ao planeta têm sido implementadas um pouco por todo o Globo. No meio automóvel, as emissões de gases nocivos ao ambiente serão, porventura, as agressões ambientais mais conhecidas, ou pelo menos as mais discutidas e, também por isso, as mais combatidas, mas há outras que estão a merecer as atenções globais...

Em Portugal, desde Fevereiro de 2000, a ValorPneu surgiu como uma entidade cujo o objectivo é o de organizar e gerir o sistema de recolha e destino final de pneus usados.

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A partir daí, várias entidades fazem o tratamento daqueles pneus, encontrando-se entre estas a Biosafe, empresa que se dedica à produção e comercialização de granulado de borracha reciclada, matéria-prima que é obtida através da transformação de pneus usados, e que possui um valor comercial extremamente competitivo.

A obtenção do granulado é conseguida através da tecnologia de trituração mecânica à temperatura ambiente, algo que permite obter o granulado de borracha reciclada de excelente qualidade, limpo e de configuração adequada a uma infinidade de aplicações. Aliás, podemos mesmo dizer que, quer seja a pé ou ao volante dos nossos veículos, "pisamos" diariamente pisos produzidos com componentes recolhidos pela Biosafe, quer estejamos a falar de superfícies desportivas ou de segurança, ou mesmo de muitas estradas em que circulamos por todo o país.

Com uma capacidade produtiva instalada que permite, anualmente, dar o melhor destino a 25.000 toneladas de pneus usados – o equivalente a cerca de 3,2 milhões de pneus de veículos ligeiros – a Biosafe olha o futuro com optimismo, tal como nos garantiu José Manuel Carvalho, Engenheiro de Materiais licenciado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e principal responsável desta empresa do Grupo Auto Sueco.

Portugueses estão a “esticar”
o tempo de vida útil dos pneus

José Manuel Carvalho é o Director Geral da BiosafeEm entrevista ao LusoMotores, que pode ser acompanhada na íntegra aqui através do acesso ao respectivo ao ficheiro áudio, José Manuel Carvalho explicou-nos a realidade da Biosafe, “uma empresa que faz reciclagem de pneus em fim de vida, transformando assim um resíduo, que é o pneu, em várias matérias-primas secundárias para várias indústrias”. São assim retirados da rede de resíduos sólidos – “por uma questão de precisão é tecnicamente incorrecto chamar detrito aos pneus usados” – que poderiam levar cerca de mil anos, segundo os cientistas, a desaparecer.

Em Portugal produzem-se anualmente cerca de 90 mil toneladas de pneus usados, dos quais 23%, por lei, têm que ser destinados à recauchutagem, destinando-se os outros (cerca de 65 mil toneladas) para a reciclagem. Aliás, em 2008 foram conseguidas 100.000 toneladas de pneus usados, um número que caiu em 2009 para as 90 mil toneladas. Já em 2010, e a julgar pelos números recolhidos até agora, José Manuel Carvalho mostrou-se convicto de que serão atingidos números em tudo idênticos aos de 2009. Ainda assim, nota-se uma tendência de quebra na quantidade de borracha obtida a partir do mesmo volume de pneus reciclados em cada ano, situação que resulta do facto dos portugueses estarem a “esticar” o período de vida útil dos pneus dos seus veículos.

Em termos de utilização das matérias-primas recolhidas a partir da reciclagem de pneus, o nosso interlocutor aponta basicamente quatro destinos para esses produtos, nomeadamente os mercados das superfícies desportivas, para onde segue 61% dos produtos recolhidos, ainda as superfícies de segurança, que utilizam cerca de 29% desses mesmos produtos, sobrando ainda 6% dos produtos para o uso em pavimentos rodoviários e cerca de 4% para o mercado industrial. Todos estes mercados acabam por ser influenciados por questões conjunturais de crise económica, e para os quais existe uma perspectiva de saturação, havendo mesmo alguns mercados que o responsável da Biosafe classifica como “maduros”. O mercado dos pavimentos rodoviários acaba assim por ser uma das alternativas, não só para as empresas de reciclagem como a Biosafe, mas também para o próprio sistema de gestão dos pneus usados.

Pavimentos rodoviários e aeroportuários
podem ser feitos com custos menores

José Manuel Carvalho é o Director Geral da BiosafeActualmente, muito do material produzido a partir da reciclagem dos pneus usados é exportado para diversos mercados internacionais onde estas matérias-primas estão a ser utilizadas por uma actividade industrial em muitos casos ainda emergente. Esta opção pela exportação, porém, sendo vantajosa para combater o facto de algumas utilizações nacionais estarem esgotadas, tem a contrapartida dos custos acrescidos que resultam do respectivo transporte. Surge assim de novo a aposta nos pavimentos rodoviários e aeroportuários em Portugal como a opção mais viável para a rentabilização desta actividade.

Enquanto que uma estrada construída com materiais convencionais pode durar dez anos, uma estrada produzida com betuminosas misturadas com borracha, e de acordo com estudos feitos a nível internacional, apontam para um período de durabilidade que pode ir até ao dobro desse tempo. É aliás por isso que, numa lógica de ciclo de vida e de rentabilidade, “a opção por este produto será claramente mais rentável, e o quilómetro quadrado de estrada, ou o quilómetro linear de estrada consoante o número de faixas, é claramente mais barato”.

Biosafe é uma empresa do Grupo Auto SuecoPermitindo actualmente 45 postos de trabalho e apresentando uma faturação anual de, aproximadamente, quatro milhões de euros, a Biosafe, a julgar pela convicção de José Manuel Carvalho, acredita que no corrente ano, e também em 2011, possam ser mantidos os números referentes à produtividade da empresa, apesar das dificuldades que se afiguram no horizonte e em jeito de conclusão da entrevista que nos concedeu, este responsável máximo pela Biosafe, embora consciente da realidade conjuntural de crise económica em que vivemos, lembrou que é lema da Biosafe “ultrapassar as dificuldades”, algo que, disse, “vai com certeza continuar a ser feito por forma a que seja possível manter a estabilidade do negócio”.

Entrevista: Jorge Reis

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