HelderCapaceteSempre disse a quem me quis ouvir que, em termos de competição motorizada, só deixava de correr quando pendurasse definitivamente o capacete . Uma operação de peito aberto e uma dengue depois, concluí que o “definitivamente” está demasiado perto do nunca, do sempre e do famigerado portuguesíssimo “já agora”. Aliás, dos muitos conselhos que se podem ler na internet, há este que reforça a minha ideia do “jamais”, mas em inglês, que é mais fino: “never say never”. É profundo.

Dos diversos factores que podem influenciar uma decisão “definitiva”, o relacionado com a saúde tem muito peso. Depois de sobreviveres à mesa de operações e de teres ultrapassado a terrível mosquita da dengue, as tuas prioridades sofrem algumas emendas, o teu sentido da vida orienta-se para outras direcções. Acho que é normal.

No meu caso, em relação à prática do desporto motorizado – seja ele com que meio for – nunca tive coragem de traçar uma linha final e dizer-me olhos no espelho: “pronto, acabou, guarda o capacete e vive das lembranças”. Tudo bem, lembranças é sempre bom trazê-las à tona, uma vez por outra, anima-te a alma, recarrega-te o ego, dá-te uma estrutura humana e social. O pior é que, para mim, lembranças eram as que, todos os dias, sem hora marcada, me atacavam a memória e me impulsionavam as saudades das pistas.

Com os anos a passar e as prioridades a mudar, começou a germinar em mim a ideia de que estava cada vez mais longe de voltar a uma pista, ao volante de uma qualquer máquina e, (confessando um pequeno segredo), por vezes fazia uma peregrinação saudosa aos meus capacetes, aos meus fatos de competição, às luvas, às botas, numa palavra, aos sacos onde esses já objectos de culto estavam guardados. E dizia para mim: quando é que voltarei a usar isto? Alguma vez voltarei a usar isto?. A data – a acontecer um regresso – residia nas penumbras do calendário. A oportunidade de me desafiar chegaria em Agosto, o mês em que festejamos o aniversário da formação da nossa equipa de karting, o NKT- New Karting Team. Durante semanas pensei se seria avisado encafuar-me num kart e afrontar as trepidações e o esforço físico em pleno Verão. Pelo sim, pelo não, fui preparando o equipamento com o mesmo carinho e esmero como nos “tempos antigos”. Era como se me preparasse para um “sacrifício”. Havia, como sempre houve nestes momentos, um quê de religioso em observância aos desejos de um qualquer deus da velocidade. Mantendo um clima de dúvida sistemática, respondia aos meus companheiros que talvez alinhasse, que tudo dependia de como me sentisse no próprio dia.

Não resisti. No próprio dia, cumpri o ritual de me equipar como se fosse alinhar na última corrida da minha vida. Sete anos de ausência das pistas é muito tempo.

Com o desenrolar das voltas, os automatismos começavam a surgir, a confiança ia-me dando forças para “mais uma”. Foram momentos de extrema felicidade.

E ficou assente na minha mente que vou aguardar mais uns tempos, até pendurar o capacete, “definitivamente”.      

 

 

 

 

 


Helder de Sousa
Jornalista

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