Os admiradores, entusiastas, fans, chamem-lhes o que se quiser, viveram prolongados momentos de euforia colectiva com as vitórias do António Félix da Costa

. No Facebook, onde, por osmose emocional, vivi a maior parte dos episódios protagonizados pelo nosso “Formiga” – formiga atómica cheia de radiações positivas –, ao mesmo tempo que apreciava o desempenho técnico, olhava, curioso, os comentários postos uns a seguir aos outros, numa avalanche de rara intensidade. Pareceu, por vezes, uma competição a ver quem era o mais entusiasta, o mais sabedor, o mais íntimo do campeão ou da família, o mais “papista que o Papa”, o mais criativo na adjectivação, o mais incontinente e fervoroso impulsionador da carreira do piloto em direcção à Fórmula 1.

AntonioFelixdaCosta-RedBullJuniorTeam02Sem dúvida, todos os que gostam de automobilismo de competição, do desporto automóvel, todos os que patriótica e inteligentemente vêm na presença de um piloto nacional na Fórmula 1 a melhor plataforma para a nossa imagem como povo, promovem, instintivamente, a campanha nesse sentido. Na minha modesta forma de ver o fenómeno, com o lastro dos anos de vida e da experiência vivida ao longo de cinquenta anos de jornalismo apaixonado pelos automóveis, já reajo com alguma moderação a estas emoções de ter um jovem português capaz de chegar à fórmula 1. Já lá tivemos alguns, todos sabemos. Infelizmente, foram carreiras relativamente efémeras, quase não deixaram esteira nas suas passagens pelas memórias colectivas dos fazedores internacionais de mitos.

Dos quatro pilotos portugueses que andaram pela Fórmula 1 – Nicha Cabral, Pedro Matos Chaves, Pedro Lamy e Tiago Monteiro –, estou em crer que os dois últimos souberam rentabilizar as suas passagens pelo ponto mais alto e tirar partido financeiro disso. Com eles fomos mantendo o sonho activado até começarem a surgir as notícias boas graças ao Félix da Costa, com o topo dos topos na recente vitória no circuito da morte em Macau. É interessante notar que, em meia dúzia de semanas, o nosso jovem campeão impôs-se como um novo talento a ser observado pelos olheiros do costume. Não sei se o entusiasmo por ele gerado no ciclo das redes sociais e de amigos e conhecidos terá tido correspondência na Comunicação Social ou a nível mais institucional tipo Federação, ACP, Governo.

A net e as redes sociais elevaram ao máximo a resposta calorosa e as “palmadinhas nas costas” de todos aqueles que sonham com um português de regresso à F1. Elevado a quase herói nacional, o António perfila-se em linha directa para a entrada no exclusivo clube da F1, tem tudo “do seu lado” e acredito que, em breve, teremos a alegria de o ver numa grelha de partida de um Grande Prémio. Com uma carreira gerida com precisão suíça, onde o pai Miguel, o mano Duarte e, certamente, muitas outras pessoas que não conheço, o António foi sendo “formatado” desde o karting para a extrema realização que é chegar à disciplina mais alta da carreira que todos os jovens pilotos ambicionam.

AntonioFelixdaCosta-Hungria01Vi e revi a forma como ele se colocou em Macau para curvar à frente no hotel Lisboa, depois de ter sido batido no arranque pelo seu adversário ao lado. Foi uma manobra pouco espectacular mas de uma sensibilidade emocional e técnica extraordinária. A frieza da atitude, o aproveitamento do momento, a execução técnica da aproximação e da travagem foram demonstrações do grande talento que lhe é reconhecido. Mas também o comprovativo de uma grande maturidade apesar da ternura dos seus 20/21 anos de idade.

Tanto quanto julgo saber, o António ainda nos vai fazer esperar mais uma época até o vermos “lá em cima”, junto com os grandes. Julgo que, quem comanda a sua carreira, pai, família, team, Tiago Monteiro, acha, avisadamente, que ele só terá a ganhar se continuar a “amadurecer” e que, com a possibilidade de ganhar o Campeonato da fórmula Renault 3.5, lhe dará o impulso final para que a entrada seja feita pela porta grande.

Como muitos, desejo ardentemente que a próxima época lhe corra bem e nos possa proporcionar imensas alegrias. Mas, passada a euforia, parece-me que uma certa contenção se impõe para o piloto poder voltar a concentrar-se no seu trabalho. A fórmula 1 é uma actividade muito particular, com as suas próprias regras de exclusividade. A Fórmula 1 é um negócio sem coração.

Podemos ser o país inteiro a “carregar” o AFC, a promover a sua imagem, a apoiá-lo, e é isso que nos compete. Mas tenho para mim que só entra na Fórmula 1 e fica lá, quem a Fórmula 1 deixar e quiser, por muitos “gostos” que sejam clicados no Facebook.   


Helder de Sousa

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