RubenFaria08Quem como eu acompanha o Dakar, rali de nome africano que se realiza do outro lado do Atlântico, à beira do Pacífico, terá sonhado por estes dias com uma vitória portuguesa nas motos , mas rapidamente acordou do sonho. É que, enquanto não chegarem ao Dakar as normas que vigoram, por exemplo, na Fórmula 1, relativamente aos jogos de equipa, o desporto passa para segundo plano, e aqueles que são efectivamente bons e merecedores dos louros da vitória, são obrigados a “levantar o pé” e a deixarem passar os favoritos do costume.

Uma penalização imposta ao chefe de fila da KTM, devido à troca de motor que Després efectuou antes do dia de descanso da prova, e um acidente protagonizado por Casteau, então líder da prova, que não evitou o choque com uma vaca, levou o algarvio Ruben Faria ao primeiro lugar da geral nas motos, e o sonho foi permitido a todos os portugueses. Todos eles, ou pelo menos todos os que ainda recordam os tempos em que o Dakar saía de Lisboa com uma enorme caravana de motos, mas também carros e quads, a par do camião da “nossa” Elisabete Jacinto a avançarem para o norte de África, todos terão esfregado as mãos e formulado aquele pensamento que invade nos últimos dias o cérebro dos adeptos do Sporting: “agora é que é!”

Porém, o desporto, tal como o “fair-play” de que muitos falam em outras modalidade, é mesmo uma treta, e há regras do jogo que falam mais alto. Neste caso, falou mais alto o poder dos patrocínios e das marcas, e Ruben Faria teve mesmo que “levantar o pé” para deixar passar Cyril Després, assumindo aquela que é, afinal, a posição que lhe é permitida pela sua condição de “aguadeiro”: a primeira posição... atrás de Després!

Ruben Faria, porém, já sabia que seria assim, simplesmente porque sempre foram essas as regras do jogo, e os que terão pensado que “agora é que é”, como em tudo o mais, terão que esperar por um novo golpe de sorte que obrigue a contornar as regras desse mesmo jogo, sob pena de continuarem a ver o sonho adiado.

Num Dakar com meia dúzia de equipas portuguesas em pista – estão em prova cinco motards lusos (Ruben Faria, Hélder Rodrigues, Paulo Gonçalves, Mário Patrão e Bianchi Prata) e uma dupla portuguesa nos automóveis (Carlos Sousa e Miguel Ramalho) – acabámos por receber uma espécie de “prémio de consolação”, com a vitória de um navegador português, Paulo Fiúza (faz dupla com o piloto argentino Orlando Terranova), na etapa de ontem, terça-feira. Os outros lugares que realmente importam, os lugares da frente, dos vencedores finais da prova, esses estão reservados para outros, aqueles que representam mercados poderosos em publicidade para o Dakar, com retornos indiscutíveis, como são para esta prova os mercados francês ou espanhol. Mas estas, afinal, são as regras do jogo, e quem entra em prova já sabe que é assim!

p.s. Por falar em regras do jogo, a conferência sobre a reforma do Estado, realizada ontem e hoje no Palácio Foz, em Lisboa, foi anunciada (e realizada) com umas estranhas regras do jogo num estado democrático, com o claro impedimento aos jornalistas de realizarem o seu trabalho, num evento para o qual foram convidados a fazer a respectiva cobertura.

Perante a contestação às “regras do jogo”, os organizadores daquele evento vieram dizer que colocaram sobre a mesa normas “antigas em toda a Europa”, e José Luís Arnaut veio concordar com tais normas afirmando que era uma forma de se poder debater com “elevação intelectual” (!?). Será que noticiar, questionar e reportar impede os pensamentos de maior nível intelectual?

Na verdade, esquecem-se os que concordam com estas normas agora em prática no Palácio Foz, que há outras regras do jogo, as regras democráticas, defendidas (ainda) pela Constituição, que determinam o exercício da profissão de jornalista. Se não queriam ser submetidos a estas regras, os organizadores do evento só tinham que se abster de convidar jornalistas, exercendo o direito de receber no seu evento quem pretendessem.

Se convidaram profissionais da Comunicação Social, deveriam saber que também para estes há regras do jogo num Estado democrático, regras que os jornalistas são obrigados a cumprir pelo próprio código deontológico, que deverão ter sempre presente no exercício das suas funções. A menos que estas regras do jogo, daquele que poderemos chamar de “jogo democrático”, tenham mudado. Será? É que, se assim foi, juro que não tive conhecimento!

JorgeReis








Jorge Reis

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