Boicotes e pecados...A família Soares dos Santos, possuidora do controlo do Grupo Jerónimo Martins, decidiu mudar a sua sede fiscal para a Holanda por entender que lhe é mais vantajoso em termos fiscais. Na sequência desta decisão, rapidamente “caiu o Carmo e a Trindade”, multiplicando-se as críticas, os grupos nas redes sociais a apelarem a boicotes mais ou menos parvos e desprovidos de qualquer sentido. Entre os que defendem o apedrejamento público da Jerónimo Martins estão certamente muitos portugueses defensores da economia nacional, sendo fácil, afinal, identificar esses patriotas a quem só faltará voltar aos tempos do Euro'2004 para os ver de bandeirinha verde rubra nas janelas.

Vejamos então quem foram aqueles que levantaram a voz contra esta atitude do grupo Jerónimo Martins, portugueses que não podendo ser apontados directamente um a um, até porque serão muitos, acabaremos por identificar neste país de inspiração católica apostólica e romana por via dos seus pensamentos, actos e omissões. Afinal, aqueles que passaram a defender que ninguém deverá fazer compras no Pingo Doce, porque a empresa que detém esta marca de superfície comercial passa a pagar impostos no país da tulipas e não em Portugal, também não farão compras no Continente, porque a Sonae tem igualmente interesses na Holanda, nem tão pouco no Lidl cujos os donos são compatriotas da senhora Angela Merkel. Também não abrem contas no BES, porque a família Espírito Santo tem sede no Luxemburgo, nem vêem televisão por cabo através do serviço da ZON porque Isabel dos Santos, a filha do presidente angolano, investe nesta empresa a partir de Malta. Já agora, também não serão clientes da Meo já que a PT continua a investir no mundo das telecomunicações… no Brasil.

Entre os portugueses cuja carteira, tal como a minha, não lhes permite entrar nos jogos bolsistas, ou especulações financeiras, e que se pronunciam nas redes sociais com a experiência de quem faz contas ao ordenado para que este chegue o mais próximo do final de cada mês, também irão boicotar o Pingo Doce e o grupo Jerónimo Martins aqueles que nunca atravessaram a fronteira para Espanha no intuito de abastecer os seus veículos automóveis com combustíveis mais baratos, porque sabem que os impostos seguem, nesse caso, para o bolso de nuestros hermanos, ou ainda aqueles que se recusaram sempre a comprar um produto estrangeiro mais barato numa loja preferindo aquirir ao dobro do preço o mesmo artigo porque apresenta a etiqueta "made em Portugal".

No mundo dos automóveis, aliás, os portugueses que irão boicotar o Pingo Doce e o Grupo Jerónimo Martins serão aqueles que nunca adquiriram, e nem sequer equacionaram como hipótese adquirir, um veículo usado importado, preferindo sempre comprar um usado nacional com o dobro dos quilómetros e o triplo do preço para poderem, desse modo, contribuir com impostos para os cofres do bem comum lusitano. Também irão alinhar no boicote aqueles que fazem questão de pedir sempre facturas de todas as suas compras para terem a certeza de que estão a pagar os seus impostos, mesmo sabendo que se pagassem sem factura poderiam, em alguns casos, pagar menos de metade dos preços.

Também irão alinhar no boicote que rapidamente começou a ser pedido nos mais diversos quadrantes, todos aqueles que, donos do seu pequeno negócio, jamais irão procurar as melhores saídas para os mesmos neste mundo global de crise económica e contrariedades. Em resumo, irão boicotar o Pingo Doce e Grupo Jerónimo Martins todos aqueles portugueses que colocaram sempre o interesse do Estado português à frente dos seus próprios interesses, os mesmos que já antes boicotaram as petrolíferas sempre que foram aumentados combustíveis, os mesmos que deixaram de usar a ponte 25 de Abril e a Vasco da Gama passando a atravessar o Tejo seguramente em Vila Franca de Xira quando aumentaram as portagens, os mesmos, aliás, que irão deixar este ano de usar as antigas SCUT porque passaram a ser portajadas. Os outros, os pecadores, continuarão a fazer compras… de Janeiro a Janeiro.

Eu pecador me confesso!

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